sexta-feira, 27 de agosto de 2010

A MESTRIA DE LACAN E A TRANSMISSÃO NA PSICANÁLISE: CONTRIBUIÇÕES NA MODALIDADE DE ENSINO A DISTÂNCIA

Jacques Lacan considera que o sujeito tem como mestre o inconsciente. E o sujeito do inconsciente não se equivale ao “eu” da consciência, o eu do penso, eu sou. Parafraseando Lacan (Meu Ensino, p.45): “O sujeito que nos interessa – sujeito não na medida em que faz o discurso, mas em que é feito por ele, (...) – é o sujeito da enunciação”. Por isso, Lacan vai dizer que esse discurso é o discurso do inconsciente que nos governa, nos comanda, rompendo com a idéia de que possa haver um Eu capaz de controlar e comandar o próprio desejo.
Em psicanálise, fala-se no saber inconsciente, este pois, não é da mesma ordem do conhecimento produzido na ciência. Na metodologia da educação tradicional, o mestre responde do lugar do saber, ensina falando como deve ser, tomando o aluno como lugar de objeto, assim exerce o comando pelo poder. Lacan, em um de seus seminários, cita o diálogo no qual Sócrates faz perguntas a um escravo, porém, no diálogo, Sócrates induz o pensar do escravo, na crítica de Lacan o que Sócrates faz é “arrebatar do escravo sua função no plano do saber” (O Avesso da Psicanálise, 1969).
A mestria de Lacan é ficar no lugar de desentendido, de ignorante, conforme pontua em O saber do Psicanalista, 1981. A psicanálise não faz uso do saber para exercer domínio sobre o outro, mas sim sendo agente causa de desejo, provocando, no outro, o desejo do saber. Contudo, se é desejo, marca-se como falta; falta que faz produzir. E é exatamente porque o saber em psicanálise é furado, faltoso é impossível transmiti-lo por completo. Assim, em 1964, Lacan cria o Ato de Fundação e estabelece um dispositivo, considerado como órgão de base da Escola, o chamado Cartel, que obedece a sua lógica que é a de um saber não totalizado.
O Cartel se constitui por decisão de seus membros, visando o estudo e a produção acerca de um tema. É uma estrutura composta de três a cinco pessoas e o mais-um, que zela pela tarefa. Os membros que compõe o Cartel trabalham tentando decifrar um saber que lhe afeta, e a resposta depende do trabalho de cada sujeito. Através do Cartel que, também, faz-se a transmissão na psicanálise.
A proposta do EAD vem ao encontro da dinâmica que rege o cartel na medida em que o orientador não dispõe do discurso do líder; é como o mais-um entre os aprendizes. No ensino a distância, assim como no cartel, a produção do saber, do não-todo saber, embora individual, não tem dono, “pertence a todo conjunto”.
Tanto para a Psicanálise quanto para a modalidade EAD, o saber é uma elaboração individual do sujeito. O tutor, ao estimular o aprendizado, aponta que o mesmo não está pronto e acabado. Precisa continuamente passar por uma constante revisão e transformação.

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