domingo, 29 de agosto de 2010

ENTENDE-SE POR JACQUES RANCIÉRE QUE, A EMANCIPAÇÃO INTELECTUAL DEVE ESTAR PRESENTE NA ALMA DO APRENDIZ DE NOSSOS TEMPOS (presencial ou EAD)

O francês Jacques Ranciére tem como base o método de aprendizagem proposto pelo mestre Joseph Jacotot (séc. XIX) que consiste no termo emancipação intelectual. O mestre encaminha o aluno a utilizar sua própria inteligência. Diferente de Sócrates, ele não induz seu interlocutor ao contexto da aprendizagem, mas, fomenta seu desejo pelo conhecimento que o fará buscar incessantemente o saber, emancipando-se intelectualmente do “mestre ignorante”. A emancipação intelectual descrita por Jacotot deixa claro que, a autonomia do aluno quanto a busca do saber o libertará das alienações dos sistemas de conhecimentos ideológicos. O papel do professor não é ensinar e sim participar do aprendizado como um incentivador.
Considerando que o sujeito tem como mestre o inconsciente que controla os seus desejos, entende-se, que o encontro destes mestres (o inconsciente) permite simbolizar as experiências e relacioná-las com o saber, elaborando, portanto, novas representações do conhecimento e dos saberes existentes. Os caminhos dos saberes já trilhados tornam-se fontes de buscas e pesquisas para se aprimorar o aprendizado. O mestre emancipador propõe um conhecimento sem limites em que o inconsciente, segundo Lacan, vai determinar o desejo da busca pelo conhecimento.
Jacotot, sem conhecer a língua holandesa, utilizou-se de uma oportunidade (revista bilíngüe Télémaque) para ensinar literatura francesa à holandeses. Os alunos sem uma mestria aparente surpreenderam o “mestre” que nada fez exceto, fomentar o desejo pelo conhecimento em seus aprendizes. Para Jacotot, o acaso ocorrido em sua experiência com seus alunos, lhe permitiu perceber que a evidência cega de todo sistema de conhecimento e ensino do mestre não é, absolutamente, necessária. Se o mestre ensina, ele impede seu aluno de aprender sozinho e, portanto, limita seu aprendizado a contextos superficiais do conteúdo ensinado. Inicialmente o mestre explicador, mero transmissor de conhecimentos apropriados de um livro ou outro mestre que sistematizou um saber, faz um conjunto de raciocínios para explicar outro raciocínio limitado ao conhecimento intencional. Decreta o aprendizado do aluno aos limites da ignorância que ele mesmo impõe e verifica se o aluno entendeu o que ele ensinou. Para Jacotot, este é o princípio do emburrecimento. Em contrapartida o mestre emancipador utiliza-se do método que deixa o aluno em um lugar de igualdade diante do mestre que em seu legado sabe que o aluno pode aprender sem mestre e sua posição é de fomentar, estimular e materializar o conhecimento.
Sócrates questionou a mestria dos sofistas e foi criticado por Ranciére em seus métodos de ensino. Entretanto, atualmente, pode-se visualizar ao logo dos tempos os diferentes momentos em que se organizou a educação. No início não havia escolas, já que a educação era exercida pelo conjunto dos seus membros. A criação da escola institucionalizada foi se tornando cada vez mais complexa e regimentada por uma minoria. Muitos pensadores contribuíram para o desenvolvimento de métodos e posturas na educação e hoje pode-se olhar para o passado e remontar um futuro com as ferramentas educacionais do presente, estimulando o indivíduo à criticidade e envolvimento com o saber. Portanto, em tempos modernos, no ensino de qualidade não deve haver diferença entre a metodologia utilizada no ensino presencial e a distância. As metodologias mais eficientes no ensino presencial são também as mais adequadas ao ensino a distância. Pedagogia por projetos, trabalho colaborativo, inteligências múltiplas, resolução de problemas, desenvolvimento de competências, autonomia, pró-atividade, aprender a aprender, são métodos, técnicas, estratégias e posturas que devem ser utilizados tanto no ensino presencial quanto no ensino a distância. Fala-se muito sobre "o aluno como centro do processo de ensino-aprendizagem" e "um novo papel para o professor, que deixa de ser o transmissor de conhecimentos e passa a ser um facilitador do processo", como características do EAD. As estratégias de ensino devem incorporar as novas formas de comunicação e, também, incorporar o potencial de informação da Internet. A emancipação intelectual deve estar presente na alma do aprendiz de nossos tempos (presencial ou EAD) pois só assim poderá apropriar-se do saber e da utilização da interatividade na aprendizagem que hoje, passa a apresentar uma nova dimensão, potencializada pela Internet e suas ferramentas. Acredito que, em breve, o termo Educação a Distância possa deixar de existir. Não se fala ao telefone "a distância", simplesmente fala-se ao telefone. Não se envia um e-mail "a distância", simplesmente envia-se um e-mail ou um arquivo anexado. Da mesma forma, não se ensina ou se aprende "a distância", simplesmente ensina-se ou aprende-se, com uso das tecnologias disponíveis, de forma presencial ou não presencial.

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