CURSO DE ESPECIALIZAÇÃO FILOSOFIA E PSICANÁLISE NA MODALIDADE EAD
FREUD COMO TEÓRICO DA MODERNIDADE BLOQUEADA
Luciene Viana kuboyama
Artigo apresentado na disciplina de Freud como teórico da modernidade bloqueada ao Curso de Especialização Filosofia e Psicanálise – na modalidade em EAD da Universidade Federal do ES.
Linhares
2010
RESUMO
A sexualidade infantil é algo que está presente na vida do ser humano desde o momento que nasce até sua morte e é importante para que o ser humano se desenvolva, sendo uma necessidade básica. Portanto não podemos valorizar a sexualidade humana somente na vida adulta, a sexualidade infantil também tem sua importância já que o ser humano já nasce sexualizado. As escolas, talvez por falta de informação não dão relevância a este assunto com as crianças pequenas, pautando-os somente quando ocorrem situações que vêem como situações constrangedoras e não como um processo de desenvolvimento humano. Assim, o presente artigo procura uma definição do caso acima citado (sexualidade infantil) explicitação sua relevância para a contemporaneidade, fundamentado na visão teórica Freudiana, através de indagações, levantando hipóteses para analisar sobre o caso. O presente artigo nos mostra a necessidade de uma orientação sexual nas instituições infantis que para nós é um desafio, mas que, no entanto está presente na vida das nossas crianças pequenas desde o seu nascimento e que provoca angústia nos professores por sentirem que não possuem preparação suficientes para lidarem este desafio constante nas instituições.
Palavras–chave: Sexualidade infantil. Escolas. Orientação sexual.
INTRODUÇÃO
A sexualidade infantil nas instituições de ensino ganha por si só espaços para discussões científicas, por ser uma necessidade vital e seu desenvolvimento está presente em cada dia que se passa nas vidas das pessoas. E sabemos que devido os profissionais não conseguirem desenvolver trabalho com essas situações existentes, deixam-a de lado.
Nestas perspectivas precisamos estar mais atentos a este assunto e nosso papel quanto educador é assumir a orientação sexual mesmo que ainda nossas crianças sejam bem pequenas, oportunizando as crianças pequenas o desenvolvimento deste conhecimento a respeito de sua sexualidade e respeitando seu próprio corpo.
O desenvolvimento deste conhecimento precisa ser realizado de maneira que a criança cresça interiormente e passe a ver a sexualidade de maneira natural e reconhecer até onde podem ir seus limites.
Deste modo a escola é um lugar onde pode ser feito orientação sexual e tem como incumbência colaborar juntamente com a família na construção de valores quanto à sexualidade. A família e a escola não podem se perder em relação a orientação sexual, pois precisam realizar um trabalho em comum.
Este artigo foi desenvolvido com introdução, desenvolvimento, discussões e conclusões, frente à realidade das instituições de ensino da educação infantil.
DESENVOLVIMENTO
O fenômeno social e político do qual vou discorrer, relata as questões da sexualidade infantil nas instituições de ensino e sua contemporaneidade. Relato que este fenômeno é social porque fazem parte dos comportamentos inerentes à sociedade, são as ações observadas individuais e nos grupos e está ocorrendo no nosso cotidiano e às vezes somos até despreparados para tais questões que são hoje tão freqüentes, tanto nas instituições, quanto na sociedade. E político porque nos mostra a valorização de ordem sexual no campo social. Sendo esta articulação em toda formação social sendo um enunciado do poder. Também descrevo que é contemporâneo por ser uma marca da época, muito embora a sexualidade infantil sempre nos trás novidades quanto aos avanços das crianças ainda pequenas neste assunto, não posso deixar de ressaltar que este assunto vem de tempos passados, e que gradativamente ocorrem mudanças, devido ao acesso das crianças a diversidade de conhecimentos que são existentes na sociedade, e que chegam para as nossas crianças, de forma desordenada, criando oportunidades para que construam diversos conceitos sobre o assunto ao modo de cada um, assim, posso dizer que estes conhecimentos chegam sem pedir “licença” e são assimilados das diferentes maneiras, conforme o entendimento de cada um, ou até mesmo do conhecimento já acumulado.
Diante o fenômeno social e político acima escrito, exponho que a sexualidade humana é de muita importância em todo o desenvolvimento do homem. Sendo o prazer uma necessidade dos seres humanos. Segundo Freud (1856-1939), "é algo inerente, que se manifesta desde o momento do nascimento até a morte, de formas diferentes a cada etapa do desenvolvimento." (FREUD apud GUIA DE ORIENTAÇÃO, 1994, p.22). Para Freud a sexualidade humana é algo que se desenvolve desde o nascimento, então é uma experiência de aprendizado sexual nato desde a infância. Muitos pensam que a sexualidade deveria ficar adormecida, mas como é algo inerente ao ser humano conforme a explicação de Freud, e é isso que torna o ser humano diferente quanto à sexualidade sendo algo que vem numa questão de pulsão.
Freud nos diz no texto O Mal-Estar na Civilização que:
"(...) a tentativa de obter uma certeza da felicidade e uma proteção contra o sofrimento através de um remodelamento delirante da realidade, é efetuada em comum por um considerável número de pessoas. As religiões da humanidade devem ser classificadas entre os delírios de massa desse tipo".
Portanto, Freud nos mostra que o Tabu pode nos ser apresentado através das religiões que são os delírios de massa e que estão presentes na sociedade influenciando com o seu poder na diversidade da cultura ética e moral de um povo. Sobretudo nas suas ações cotidianas influenciando nos comportamentos de grupo ou individual nas instituições de ensino.
Freud em Totem e Tabu comparam os ritmos de um povo com o processo que passa o inconsciente, o Totem (representando plantas, animais ou antepassado) nos deixou indícios da religião e os costumes de um povo e o Tabu (são os códigos não escritos da humanidade) de onde advém os castigos do grupo ou de membros do grupo. Desses códigos que vem do antepassado, que são os Tabus, nos encontramos as questões que estão inseridas em contextos sociais, relacionados à sexualidade e assim ocorrem as renuncias baseadas no Tabu que cada grupo ou individuo possui, tornando o objeto impossível.
O animal totêmico é também geralmente considerado o animal ancestral do grupo em questão. 'Totem' é, por um lado, um nome de grupo, um indicativo de ancestralidade. Sob o último aspecto, possui também uma significação mitológica (FREUD, 1913/1974, P.131).
A citação de Freud, nos diz que o Totem enquanto mito de transformará em Tabu, assim, Freud nos diz que:
Mas como ocorreu essa cisão? Através da transplantação, é o que nos diz Wundt, dos regulamentos do tabu, da esfera dos demônios para a esfera da crença em deuses. [Ibid., 311.] O contraste entre 'sagrado' e 'impuro' coincide com uma sucessão de dois períodos da mitologia. O mais antigo desses dois períodos não desapareceu completamente quando o segundo foi alcançado, mas persistiu no que foi considerado como uma forma inferior e finalmente desprezível. [Ibid., 312] É uma lei geral da mitologia, afirma ele, que uma fase que tenha passado, pelo próprio motivo de ter sido superada e impelida para baixo por uma fase superior, perdura numa forma inferior ao lado da posterior, de modo que os objetos de sua veneração se transmudam em objetos de horror" (Freud, 1913/1974, p.45).
Deste modo, compreende-se, assim, que uma lei faria dos totens (mitos) originários de um primeiro tempo, os tabus de um segundo tempo. Mas, ocorreria também um fenômeno oposto, a saber: onde podemos dizer que seja a chamada não transformação e que conserva o mito.
Ao que tudo indica, o totem define uma consagüinidade na qual se inscreve uma lei para deter o indivíduo ante o incesto. Por isso Freud considera a renúncia como a base para o tabu.
Para Adorno as culturas das massas, que chegam até as pessoas das diversas maneiras, através dos meios de comunicação é uma cultura industrial, onde as crianças das instituições estão inseridas nessa massa e estão em contato com essa diversidade de conhecimentos que advém de diversas culturas sociais, trazendo hábitos e costumes de seus ancestrais baseados em princípios éticos e morais expressam seus conhecimentos de maneira que pensam e que podem levá-lo ao seu mundo social. Assim, encontramos as diversas questões sociais que estão presentes nas instituições de ensino, sendo isso uma resposta da indústria cultural no qual recebeu influências e que ocorreram aprendizagens que refletem nas suas atitudes quanto pessoa integrante de uma sociedade.
Como o referido texto nos retrata sobre as questões da sexualidade infantil nas instituições de ensino não posso deixar de pautar sobre as fases de organização da libido discorrido por Freud. Em “Os Três Ensaios Sobre a Sexualidade”, Freud (1905) fala sobre a teoria da sexualidade infantil e faz colocações sobre como era visto pela sociedade. A sociedade tem visão que a pulsão sexual somente pode ser despertada na puberdade. Para Freud isso não é uma verdade, já que é algo nato desde seu nascimento, através dessa linha de pensamento é possível analisar que as pessoas são tão cheias de Tabus que lembram muito pouco de sua infância, ou talvez até lembram mas como é visto como algo errado é melhor “fazer de conta” que não se lembrem de fatos que ocorreram na infância, sendo elas assim, recalcadas devido a culpa do valor não dado ao desenvolvimento da vida sexual no período infantil.
Segundo Freud, o desenvolvimento da sexualidade infantil da-se início na amamentação, sendo visto como instinto da fome, mas logo a crianças ganha independência e aprende a “auto erotizar”, através dos lábios, ânus e genitais. Daí essas pulsões sexuais são sublimadas para realizações culturais, onde para alguns se fundem como objetivo único de prazer e para outros como reprodução.
Para Freud a organização da fase da libido são: oral, anal, fálica, latência e genital.
A fase oral se inicia nos primeiros meses de vida, sendo ainda a criança dependente da mãe que aos poucos vai inserindo-a no campo da linguagem. Quando a criança nasce começa sentir fome para ela isso é um sentimento diferente do qual sentia anteriormente dentro do ventre da mãe, pois no ventre seu corpo vivia num equilíbrio, sua alimentação lhe era proporcionado conforme necessidade e a partir do nascimento terá que ir a busca dessa satisfação, por este motivo que ocorre o choro, que não é uma estratégia para se comunicar, apenas um efeito forte devido à fome, assim a mãe corre para saciar a vontade dessa criança levando alimento que geralmente é o seio, que para criança é muito novo e diferente, mas faz com que vença o estímulo inicial (fome). Assim a criança percebe que seu choro faz com que sua mãe se aproxima e deste modo fará uso dessa linguagem, para conseguir o que deseja. A criança com este primeiro contato que é o seio da mãe em sua boca, a criança deixa de ser matéria para um corpo erotizado, desenvolvendo a libido; depois desse primeiro contato com o seio ela utilizará outros objetos a fim de conseguir esse estímulo oral através do dedo, da chupeta, etc.; onde passa levar todos os objetos a boca. As pessoas com fixação na fase oral desenvolvem transtornos alimentares (anorexia e bulimia), comem demais, preferem sexo oral, são verbalmente agressivas, isso se dá devido a traumas na fase oral no qual a pessoa fica fixada. A fase anal ocorre quando os papeis são invertidos, sendo que é a mãe quem pede e não o filho. Quando a mãe pede as fezes da criança, através do tradicional “troninho”, esta se sente que pode dar ou negar, devido às fezes fazerem parte do seu próprio corpo e para as crianças são vista como um presente. Quando a criança está nesta fase começa a fazer controle de seus esfíncteres, no qual vem junto com a erotização da região. Deste modo surge a segunda zona onde a libido vai ser investida. A personalidade da criança tem fortes características conforme administra suas fezes, sendo está à primeira coisa que pode administrar. As pessoas com fixação anal têm propensão a serem ordeiras, teimosas e avarentas, podendo desenvolver compulsões. A fase fálica no seu início se dá quando a criança começa descobrir que pode obter prazer através de seus órgãos sexuais. A masturbação, que coincide com o período do Complexo de Édipo e do Complexo de Castração. Sendo está a grande descoberta que as crianças percebem as diferenças entre as meninas e os meninos. Pessoas com fixação nesta fase podem considerar a masturbação como forma mais satisfatória de sexo; sendo assim, os homens com esse tipo de fixação podem gostar de usar seu pênis para dominar na cama, como forma de poder e mulheres podem desenvolver complexo de inferioridade, se diminuindo, sentindo-se fragilizadas principalmente em relação aos homens. A saída do Complexo de Édipo, marca a entrada do período de latência, recalcando impulsos eróticos da fase fálica, bem como o Complexo de Édipo. Onde os impulsos sexuais podem ser direcionados para outras atividades não sexuais, como trabalhos intelectuais e artísticos. A fase genital chega ao início da puberdade, onde os impulsos sexuais passam novamente a receber atenção; dentro de fantasias, não mais auto-eróticas, mas compartilhadas. Sendo esta a fase onde as pessoas se interessam pela outras de maneira sexual.
Após discorrer sobre a organização da libido segundo Freud, nos torna mais compreensível as fases do desenvolvimento da sexualidade infantil, bem como compreender o que as fixações podem causar no comportamento humano, e como nos remete também, pensar o que a indústria cultural pode interferir nessa construção da sexualidade infantil, através dos conhecimentos que são proporcionados pelos meios de comunicação, que estão presentes a todo momento no nosso cotidiano, essas influências quando chegam a um ser que já nasce com sexualidade desde a infância, faz com que através de suas curiosidades, tenham comportamentos que para alguns de nós adultos são considerados errados, devido as regras que encontram na sociedade, mas que são adquiridos através das modelações que encontram no contexto social que está inserido. Desde modo, basta-nos ter sapiência para proporcionar uma orientação sexual saudável para essas crianças, onde não lhes trará futuros traumas, comprometendo seu desenvolvimento quanto à sexualidade.
Discussões e conclusões
A escola é um espaço de descobertas infantis, através do mundo das fantasias, curiosidades, medos, entre outras sensações, também é espaço de manifestação de sexualidade. Sendo ela um dos meios para se fazer intervenção sobre sexualidade, de modo que as crianças pequenas formem seus conceitos sobre o assunto.
Os educadores se deparam frequentemente com situações ligadas à sexualidade na escola, qualquer que seja a decisão que o educador tome quanto o comportamento da criança quanta a sexualidade repercute na sexualidade, pois o adulto serve para a criança como uma modelação no qual ele pode se referenciar.
É preciso que os educadores vejam a sexualidade infantil como um processo natural de desenvolvimento humano e que estejam atentos às crianças quanto suas verbalizações em relação às curiosidades quanto ao assunto sexualidade.
Portanto a orientação quanto à sexualidade deve estar sempre presente no sentindo de formar cidadãos livres de preconceitos, tabus, buscando uma inserção para conseguir que nossas crianças sejam educadas com objetivos de construir identidade e não que seja cheia de frustrações onde não conseguem se conhecer e buscar transformações em seu interior.
REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ADORNO, T.W. Teoria Freudiana e o Padrão da Propaganda Fascista.
FREUD, S. O Mal-Estar na Civilização. Rio de Janeiro: Imago, ed. 1997.
FREUD, S. Psicologia das massas e análise do eu. In: Obras completas de Sigmund Freud; trad. Dr. I. Izecksohn. Rio de Janeiro: Delta.
FREUD, S. Totem e tabu. In: Obras completas de Sigmund Freud; trad. Dr. J.P. Porto. Rio de Janeiro: Delta.
FREUD, S. (1901-1905). Um caso de Histeria, Três Ensaios Sobre a Sexualidade e outros Trabalhos. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Imago: Rio de Janeiro, 1996
GTPOS, ABIA, ECOS. Guia de Orientação Sexual: diretrizes e metodologia. 4a ed. São Paulo: Casa do psicólogo, 1994.
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