É tempo de globalização, do poder do discurso das ciências, do avanço tecnológico, da corrida contra o tempo e em torno da moeda. Muitos são os discursos, entre esses, o do fanatismo religioso e de toda forma de exploração da miséria material e emocional, como é o caso do terrorismo.
A proposta deste artigo é de refletir o problema do terrorismo que se relaciona com a questão da intolerância às diferenças, à identificação massificada com um líder “que detém o poder” e os movimentos fascistas de massa.
Segundo dicionário Aurélio (2004) terrorismo é definido como “conjunto de atos, de violência cometidos por agrupamentos revolucionários” (p.1838). Terrorismo neste artigo deve ser entendido como uma estratégia política que consiste no uso de violência, física e psicológica por indivíduos, ou grupos políticos, contra a ordem estabelecida através de um ataque a um governo ou à população que legitimou.
Para refletir sobre o terrorismo, é necessário partir de hipóteses prováveis. E uma delas é de natureza psicológica: o terrorismo e a agressividade decorrente irrompem individual e socialmente em razão de uma conjunção de fatores psíquicos explicáveis pela psicanálise. Esta hipótese pode ser discutida à luz de contribuições de pensadores e de teóricos, no campo da psicanálise e da filosofia. Algumas questões tratadas por Freud em O mal estar na civilização (1930), Totem e tabu (1913), Uma questão de uma Weltanschauung (1933), Psicologia das massas e análise do eu (1921); e por Adorno no artigo Teoria freudiana e o padrão da propaganda fascista (1951).
Para Freud (1930) a humanidade e sua cultura é uma patologia; sua teoria está fundada na compreensão do sujeito perante suas defesas e estratégias para interagir com o mundo externo.
Em 1913, na obra Totem e tabu, Freud indica a reflexão de que o ser humano ingressa na cultura através da lei do pai. Nesta obra, o autor traz o mito do pai primitivo, que impedia o gozo de todos os seus filhos ao reservar para si o direito de possuir todas as mulheres (inclusive mãe e irmãs), é morto por eles. São esses mesmos membros da horda que irão restaurar a interdição da endogamia ao erigir um totem que simboliza o pai morto. Assim, o tabu ao incesto consolida-se como a primeira lei estabelecida entre os homens, demarcando uma passagem para a vida em civilização e o pacto do laço social.
Na teoria freudiana a Lei é simbólica e rege os homens na condição de seres que habitam a linguagem. E as leis que os homens fazem para regular as relações entre si, tornam-no civilizado?
Em o Mal estar na Civilização (1930), Freud diz que a civilização se impõe ao homem, projetando-o de estado de natureza para o estado da sociedade, à custa de restringir aquilo que é considerado o propósito da vida: a felicidade. Para Freud (1930) as relações sociais são reguladas tendo como base a restrição as liberdades humanas individuais. Estas restrições, se por um lado viabilizam a vida em sociedade, trazem sérias implicações à organização psíquica do ser humano. Que por conta desta liberdade perdida, estará permanentemente em conflito com a civilização, reconhecendo que cada revolução, cada impacto que a humanidade experimenta, é uma tentativa de externar e superar este conflito, esta inquietação. Nas palavras de Freud, O mal estar na civilização:
Grande parte das lutas da humanidade centralizam-se em torno da tarefa única de encontrar uma acomodação conveniente – isto é, uma acomodação que traga felicidade - , entre esse reivindicação do indivíduo e as reivindicações culturais do grupo, e um dos problemas que incide sobre o destino da humanidade é o de saber se tal acomodação pode ser alcançada por meio de alguma forma específica de civilização ou se este conflito é irreconciliável. (FREUD, 1929, P.117)
Freud (1930) apresenta, ainda, a libido como a força que visa unir a todos os homens em comunidades através dos laços libidinais. E trás à tona um outro aspecto da constituição humana: a agressividade. Para esse autor, ela é parte fundamental da natureza humana.
Acredita-se que é o controle e a regulação desta agressividade que tem sido o maior desafio da civilização. A religião, a ética, são resultados destes esforços coibitivos sobre a agressividade humana. Nas palavras de Freud:
Que poderoso obstáculo à civilização a agressividade deve ser, se a defesa contra ela pode causar tanta infelicidade quanto a própria agressividade! A ética ‘natural’, tal como é chamada, nada tem a oferecer aqui, exceto a satisfação narcísica de se poder pensar que se é melhor do que os outros. Nesse ponto, a ética baseada na religião introduz suas promessas de uma vida melhor depois da morte. (FREUD, 1929, P.135)
Freud (1930) afirma que o amor reinante em algumas comunidades só é possível se o grupo identificar algum grupo externo sobre o qual possa descarregar esta agressividade.
Em Psicologia das massas e análise do eu (1921), o mesmo autor, baseado na obra de Le Bon, formula a teoria das identificações, mostrando os efeitos do grupo no indivíduo e a transformação de um agregado de indivíduos em um grupo. Freud (1921), conclui que a sugestionabilidade é um contágio; e que o grupo é “impulsivo, instável e irritável” (p.88), comparando-o entre a vida mental dos primitivos e de crianças.
O grupo está sujeito ao poder de sedução das palavras de um líder, e este para Freud (1921) influencia por meio de idéias que eles próprios acreditam fanaticamente, como é o caso dos terroristas religiosos. Em 1951, Adorno em seu artigo Teoria Freudiana e o Padrão da Propaganda Fascista, chega a afirmar sobre “poderes” (ADORNO, 1951, p.3) que o movimento do fascismo tem, já que este “ideologicamente racionaliza o irracional”. Já que seria impossível ganhar as massas por argumentos racionais, os fascistas utilizam suas propagandas defletida do pensamento discursivo e orientada psicologicamente de forma a mobilizar processos, segundo ele, “irracionais, inconscientes e regressivos” (ADORNO, 1951, p.3).
Assim como na dialética do Senhor e do escravo de Hegel, que traz idéia semelhante que para todo líder há os liderados, em Psicologia das massas e análise do eu, Freud (1921), citando Le Bon diz: “Um grupo é um rebanho obediente, que nunca poderia viver sem um senhor. Possui tal anseio de obediência, que se submete instintivamente a qualquer um que se indique a si próprio como chefe” (Le Bon apud Freud, 1921, p.91).
Adorno (1951), recordando Freud, acredita que a psicologia da massa está relacionada a um tipo de aflição psicológica que leva ao declínio do indivíduo, quando este se submete à vontade de poderosas instâncias coletivas externas. Exemplo disso está nos atuais noticiários, que trazem homens-bombas que se suicidam em nome de Deus e de sua crença religiosa. “Existem homens de ação, inabaláveis em suas convicções, inacessíveis à dúvida, destituídos de sentimentos pelo sofrer dos outros que se opões às suas intenções”, disse Freud (1933, p.176).
Uma importante questão que se coloca é: como um ser humano pode desafiar um dos mais poderosos instintos, o de sobrevivência ou de autopreservação, em nome de crenças religiosas ou ideologias políticas? Não seria o comportamento do terrorista o resultado de uma forte e efetiva doutrinação do seu líder?
Segundo Adorno (1951), Freud queria descobrir o que estava por trás da transformação de indivíduos em uma massa, o que poderia levar a uma manipulação fascista. “Pois o demagogo fascista, tem que obter o apoio de milhões de pessoas para objetivos altamente incompatíveis com seu próprio auto-interesse racional, só pode fazê-lo criando artificialmente o vínculo que Freud está buscando.” (ADORNO, 1951, p.5).
Na teoria freudiana o vínculo que integra os indivíduos em uma massa é a libido. Para Adorno, esta afirmação traz uma importante conseqüência porque rompe com o caráter dos instintos específicos da massa. Nas palavras desse autor:
Como uma rebelião contra a civilização o fascismo não é simplesmente a decorrência do arcaico, mas sua reprodução na e pela civilização. É pouco adequado definir as forças da rebelião fascista simplesmente como poderosas energias do id que se livram da pressão da ordem social existente. Ao invés disto, esta rebelião empresta suas energias em parte de outras instâncias psicológicas que são forçadas a servir o inconsciente. ( ADORNO, 1951, p.6)
O movimento do terrorismo está centrado na idéia do líder, enquanto a função e a imagem que este ocupa, é, segundo Adorno (1951), a “do todo-poderoso e ameaçador pai primitivo” (ADORNO, 1951, p.10).
O que significa isso? Que essa modalidade de liderança e discurso se apresenta por meio de uma figura paterna onipotente?
Ao estabelecer uma ligação entre as obras Totem e tabu (1933) e Psicologia das massas e análise do eu (1921), percebe-se, com efeito, que com a morte de Deus e o assassinato do Pai do patriarcado, as massas – que não conseguem exercer plenamente a sua soberania política – aceitam de bom grado a sedução autoritária. Dessa maneira, o vazio do poder será preenchido por um líder carismático, versão de um novo Deus e de um Pai onipotente.
Para Adorno (1951), a identificação é o mecanismo que transforma a libido na ligação entre líder e liderados, e conforme citado por este autor Freud diz: “a identificação é a expressão mais primitiva de uma ligação emocional com outra pessoa” (Freud apud Adorno, 1951, p.9).
O líder é o depositário do laço social; não é somente um laço de amor, e a explicação pela hipnose ou sugestão não é suficiente. É, então, a operação de cada um do grupo de ter se desapossado do ideal do Eu em favor do líder idealizado que explica o movimento de alguns dentro da massa ao encontro dos atos de violência e agressividade que culminam no terrorismo (Freud,1921). Assim, para Adorno (1951), não há somente a ligação libidinal, mas a própria identidade dos sujeitos que está mal estabelecida.
A análise de Freud (1921) da fragilidade da ordem grupal quando se apóia em mecanismos identificatórios, ligando fanaticamente o indivíduo ao líder e ao grupo, traz uma reflexão: O indivíduo se desfaz de seu direito natural em proveito da civilização, que então exerce o poder que lhe é assim conferido.
Em contrapartida, supõe-se que a agressividade, do ponto de vista do indivíduo, está relacionada com a atitude de hostilidade deste com a civilização, que ele considera em grande parte responsável pela sua desgraça, “na realidade ainda teremos de lutar, durante um tempo incalculável, com as dificuldades que o caráter indomável da natureza humana apresenta a qualquer espécie de comunidade social” (FREUD, 1933, p.176), adverte Freud.
Em última análise, tem-se a religião como motivação por parte de alguns grupos ao ato terrorista. Freud (1933) chega a dizer que “a religião é um poder imenso que tem a seu serviço as mais fortes emoções dos seres humanos” (FREUD, 1933, p.158).
Pode-se destacar grupos religiosos que acreditam na destruição como forma de propagar aquilo que acreditam e acabar com outras linhas religiosas contrárias às ações dos mesmos. Cada grupo religioso é movido a utilizar o terrorismo por questões, cada grupo possui seu motivo particular. Em 1933, Freud em Uma questão de uma Weltanschauung, faz um contraponto da religião à psicanálise:
Enquanto as diferentes religiões altercam entre si pela posse da verdade, nossa opinião reside em que a questão da verdade das crenças religiosas pode ser totalmente colocada à parte. A religião é uma tentativa de obter domínio do mundo perceptível no qual nos situamos, através do mundo dos desejos que desenvolvemos dentro de nós em conseqüência de necessidades biológicas e psicológicas. ( FREUD, 1933, p.164)
Freud (1933) chega a afirmar que a religião é uma ilusão e que é movida em ajustar-se aos nossos impulsos de instintos e desejos. Contudo, este autor deixa alguma esperança quanto ao futuro da humanidade, ao fazer analogia entre o processo civilizatório e o caminho do desenvolvimento individual. É possível afirmar que o social desenvolve um superego sob cuja influência se produz a evolução cultural.
Freud (1930) admite a possibilidade de uma acomodação final, em nível individual. Pode-se esperar, também, que tal ocorrerá com o social, no futuro da civilização, por mais que essa civilização possa oprimir o homem. O superego cultural desenvolveu seus ideais e estabeleceu suas exigências. Entre tantas exigências, contam-se as que tratam as relações dos seres humanos uns com os outros e estão abrangidas sob o título de ética.
Se o desenvolvimento da civilização possui uma semelhança tão grande com o desenvolvimento do indivíduo, e se emprega os mesmos métodos, é possível concluir que, sob a influência de premências culturais, algumas civilizações se tornaram neuróticas. O terrorismo poderia ser encarado, portanto, como produto das neuroses da civilização. Nesse sentido, também a humanidade pode estar esperançosa de que um dia alguém se aventure a se empenhar na elaboração de uma patologia das comunidades culturais.
REFERÊNCIAS:
ADORNO, Theodor W. Teoria Freudiana e o Padrão da Propaganda Fascista. 1951.
FERREIRA, Aurélio B. de Hollanda. Novo Dicionário da Língua Portuguesa. 3. ed. Curitiba.: Positivo, 2004. p.1838.
Freud, S. (1913). Totem e Tabu. Em Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, vols. XIII . Rio de Janeiro: Imago, 1997.
______. (1921). Psicologia das massas e análise do eu. Em Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, vol. XVIII. Rio de Janeiro: Imago, 1997.
______. (1930). O Mal estar na civilização. Em Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, vol.XXI. Rio de Janeiro: Imago, 1997.
______. (1933). Novas conferências introdutórias; conferência XXXV - A questão de uma Weltanschauung. Em Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, vol.XXII. Rio de Janeiro: Imago, 1997.
SAFATLE, V. Freud como teórico da Modernidade Bloqueada. In: Políticas Freudianas. Vitória: 2010.
ALINE MATTOS PERUCH
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