CURSO DE ESPECIALIZAÇÃO FILOSOFIA E PSICANÁLISE NA MODALIDADE EAD
FREUD COMO TEÓRICO DA MODERNIDADE BLOQUEADA
Luciene Viana kuboyama
Artigo apresentado na disciplina de Freud como teórico da modernidade bloqueada ao Curso de Especialização Filosofia e Psicanálise – na modalidade em EAD da Universidade Federal do ES.
Linhares
2010
RESUMO
A sexualidade infantil é algo que está presente na vida do ser humano desde o momento que nasce até sua morte e é importante para que o ser humano se desenvolva, sendo uma necessidade básica. Portanto não podemos valorizar a sexualidade humana somente na vida adulta, a sexualidade infantil também tem sua importância já que o ser humano já nasce sexualizado. As escolas, talvez por falta de informação não dão relevância a este assunto com as crianças pequenas, pautando-os somente quando ocorrem situações que vêem como situações constrangedoras e não como um processo de desenvolvimento humano. Assim, o presente artigo procura uma definição do caso acima citado (sexualidade infantil) explicitação sua relevância para a contemporaneidade, fundamentado na visão teórica Freudiana, através de indagações, levantando hipóteses para analisar sobre o caso. O presente artigo nos mostra a necessidade de uma orientação sexual nas instituições infantis que para nós é um desafio, mas que, no entanto está presente na vida das nossas crianças pequenas desde o seu nascimento e que provoca angústia nos professores por sentirem que não possuem preparação suficientes para lidarem este desafio constante nas instituições.
Palavras–chave: Sexualidade infantil. Escolas. Orientação sexual.
INTRODUÇÃO
A sexualidade infantil nas instituições de ensino ganha por si só espaços para discussões científicas, por ser uma necessidade vital e seu desenvolvimento está presente em cada dia que se passa nas vidas das pessoas. E sabemos que devido os profissionais não conseguirem desenvolver trabalho com essas situações existentes, deixam-a de lado.
Nestas perspectivas precisamos estar mais atentos a este assunto e nosso papel quanto educador é assumir a orientação sexual mesmo que ainda nossas crianças sejam bem pequenas, oportunizando as crianças pequenas o desenvolvimento deste conhecimento a respeito de sua sexualidade e respeitando seu próprio corpo.
O desenvolvimento deste conhecimento precisa ser realizado de maneira que a criança cresça interiormente e passe a ver a sexualidade de maneira natural e reconhecer até onde podem ir seus limites.
Deste modo a escola é um lugar onde pode ser feito orientação sexual e tem como incumbência colaborar juntamente com a família na construção de valores quanto à sexualidade. A família e a escola não podem se perder em relação a orientação sexual, pois precisam realizar um trabalho em comum.
Este artigo foi desenvolvido com introdução, desenvolvimento, discussões e conclusões, frente à realidade das instituições de ensino da educação infantil.
DESENVOLVIMENTO
O fenômeno social e político do qual vou discorrer, relata as questões da sexualidade infantil nas instituições de ensino e sua contemporaneidade. Relato que este fenômeno é social porque fazem parte dos comportamentos inerentes à sociedade, são as ações observadas individuais e nos grupos e está ocorrendo no nosso cotidiano e às vezes somos até despreparados para tais questões que são hoje tão freqüentes, tanto nas instituições, quanto na sociedade. E político porque nos mostra a valorização de ordem sexual no campo social. Sendo esta articulação em toda formação social sendo um enunciado do poder. Também descrevo que é contemporâneo por ser uma marca da época, muito embora a sexualidade infantil sempre nos trás novidades quanto aos avanços das crianças ainda pequenas neste assunto, não posso deixar de ressaltar que este assunto vem de tempos passados, e que gradativamente ocorrem mudanças, devido ao acesso das crianças a diversidade de conhecimentos que são existentes na sociedade, e que chegam para as nossas crianças, de forma desordenada, criando oportunidades para que construam diversos conceitos sobre o assunto ao modo de cada um, assim, posso dizer que estes conhecimentos chegam sem pedir “licença” e são assimilados das diferentes maneiras, conforme o entendimento de cada um, ou até mesmo do conhecimento já acumulado.
Diante o fenômeno social e político acima escrito, exponho que a sexualidade humana é de muita importância em todo o desenvolvimento do homem. Sendo o prazer uma necessidade dos seres humanos. Segundo Freud (1856-1939), "é algo inerente, que se manifesta desde o momento do nascimento até a morte, de formas diferentes a cada etapa do desenvolvimento." (FREUD apud GUIA DE ORIENTAÇÃO, 1994, p.22). Para Freud a sexualidade humana é algo que se desenvolve desde o nascimento, então é uma experiência de aprendizado sexual nato desde a infância. Muitos pensam que a sexualidade deveria ficar adormecida, mas como é algo inerente ao ser humano conforme a explicação de Freud, e é isso que torna o ser humano diferente quanto à sexualidade sendo algo que vem numa questão de pulsão.
Freud nos diz no texto O Mal-Estar na Civilização que:
"(...) a tentativa de obter uma certeza da felicidade e uma proteção contra o sofrimento através de um remodelamento delirante da realidade, é efetuada em comum por um considerável número de pessoas. As religiões da humanidade devem ser classificadas entre os delírios de massa desse tipo".
Portanto, Freud nos mostra que o Tabu pode nos ser apresentado através das religiões que são os delírios de massa e que estão presentes na sociedade influenciando com o seu poder na diversidade da cultura ética e moral de um povo. Sobretudo nas suas ações cotidianas influenciando nos comportamentos de grupo ou individual nas instituições de ensino.
Freud em Totem e Tabu comparam os ritmos de um povo com o processo que passa o inconsciente, o Totem (representando plantas, animais ou antepassado) nos deixou indícios da religião e os costumes de um povo e o Tabu (são os códigos não escritos da humanidade) de onde advém os castigos do grupo ou de membros do grupo. Desses códigos que vem do antepassado, que são os Tabus, nos encontramos as questões que estão inseridas em contextos sociais, relacionados à sexualidade e assim ocorrem as renuncias baseadas no Tabu que cada grupo ou individuo possui, tornando o objeto impossível.
O animal totêmico é também geralmente considerado o animal ancestral do grupo em questão. 'Totem' é, por um lado, um nome de grupo, um indicativo de ancestralidade. Sob o último aspecto, possui também uma significação mitológica (FREUD, 1913/1974, P.131).
A citação de Freud, nos diz que o Totem enquanto mito de transformará em Tabu, assim, Freud nos diz que:
Mas como ocorreu essa cisão? Através da transplantação, é o que nos diz Wundt, dos regulamentos do tabu, da esfera dos demônios para a esfera da crença em deuses. [Ibid., 311.] O contraste entre 'sagrado' e 'impuro' coincide com uma sucessão de dois períodos da mitologia. O mais antigo desses dois períodos não desapareceu completamente quando o segundo foi alcançado, mas persistiu no que foi considerado como uma forma inferior e finalmente desprezível. [Ibid., 312] É uma lei geral da mitologia, afirma ele, que uma fase que tenha passado, pelo próprio motivo de ter sido superada e impelida para baixo por uma fase superior, perdura numa forma inferior ao lado da posterior, de modo que os objetos de sua veneração se transmudam em objetos de horror" (Freud, 1913/1974, p.45).
Deste modo, compreende-se, assim, que uma lei faria dos totens (mitos) originários de um primeiro tempo, os tabus de um segundo tempo. Mas, ocorreria também um fenômeno oposto, a saber: onde podemos dizer que seja a chamada não transformação e que conserva o mito.
Ao que tudo indica, o totem define uma consagüinidade na qual se inscreve uma lei para deter o indivíduo ante o incesto. Por isso Freud considera a renúncia como a base para o tabu.
Para Adorno as culturas das massas, que chegam até as pessoas das diversas maneiras, através dos meios de comunicação é uma cultura industrial, onde as crianças das instituições estão inseridas nessa massa e estão em contato com essa diversidade de conhecimentos que advém de diversas culturas sociais, trazendo hábitos e costumes de seus ancestrais baseados em princípios éticos e morais expressam seus conhecimentos de maneira que pensam e que podem levá-lo ao seu mundo social. Assim, encontramos as diversas questões sociais que estão presentes nas instituições de ensino, sendo isso uma resposta da indústria cultural no qual recebeu influências e que ocorreram aprendizagens que refletem nas suas atitudes quanto pessoa integrante de uma sociedade.
Como o referido texto nos retrata sobre as questões da sexualidade infantil nas instituições de ensino não posso deixar de pautar sobre as fases de organização da libido discorrido por Freud. Em “Os Três Ensaios Sobre a Sexualidade”, Freud (1905) fala sobre a teoria da sexualidade infantil e faz colocações sobre como era visto pela sociedade. A sociedade tem visão que a pulsão sexual somente pode ser despertada na puberdade. Para Freud isso não é uma verdade, já que é algo nato desde seu nascimento, através dessa linha de pensamento é possível analisar que as pessoas são tão cheias de Tabus que lembram muito pouco de sua infância, ou talvez até lembram mas como é visto como algo errado é melhor “fazer de conta” que não se lembrem de fatos que ocorreram na infância, sendo elas assim, recalcadas devido a culpa do valor não dado ao desenvolvimento da vida sexual no período infantil.
Segundo Freud, o desenvolvimento da sexualidade infantil da-se início na amamentação, sendo visto como instinto da fome, mas logo a crianças ganha independência e aprende a “auto erotizar”, através dos lábios, ânus e genitais. Daí essas pulsões sexuais são sublimadas para realizações culturais, onde para alguns se fundem como objetivo único de prazer e para outros como reprodução.
Para Freud a organização da fase da libido são: oral, anal, fálica, latência e genital.
A fase oral se inicia nos primeiros meses de vida, sendo ainda a criança dependente da mãe que aos poucos vai inserindo-a no campo da linguagem. Quando a criança nasce começa sentir fome para ela isso é um sentimento diferente do qual sentia anteriormente dentro do ventre da mãe, pois no ventre seu corpo vivia num equilíbrio, sua alimentação lhe era proporcionado conforme necessidade e a partir do nascimento terá que ir a busca dessa satisfação, por este motivo que ocorre o choro, que não é uma estratégia para se comunicar, apenas um efeito forte devido à fome, assim a mãe corre para saciar a vontade dessa criança levando alimento que geralmente é o seio, que para criança é muito novo e diferente, mas faz com que vença o estímulo inicial (fome). Assim a criança percebe que seu choro faz com que sua mãe se aproxima e deste modo fará uso dessa linguagem, para conseguir o que deseja. A criança com este primeiro contato que é o seio da mãe em sua boca, a criança deixa de ser matéria para um corpo erotizado, desenvolvendo a libido; depois desse primeiro contato com o seio ela utilizará outros objetos a fim de conseguir esse estímulo oral através do dedo, da chupeta, etc.; onde passa levar todos os objetos a boca. As pessoas com fixação na fase oral desenvolvem transtornos alimentares (anorexia e bulimia), comem demais, preferem sexo oral, são verbalmente agressivas, isso se dá devido a traumas na fase oral no qual a pessoa fica fixada. A fase anal ocorre quando os papeis são invertidos, sendo que é a mãe quem pede e não o filho. Quando a mãe pede as fezes da criança, através do tradicional “troninho”, esta se sente que pode dar ou negar, devido às fezes fazerem parte do seu próprio corpo e para as crianças são vista como um presente. Quando a criança está nesta fase começa a fazer controle de seus esfíncteres, no qual vem junto com a erotização da região. Deste modo surge a segunda zona onde a libido vai ser investida. A personalidade da criança tem fortes características conforme administra suas fezes, sendo está à primeira coisa que pode administrar. As pessoas com fixação anal têm propensão a serem ordeiras, teimosas e avarentas, podendo desenvolver compulsões. A fase fálica no seu início se dá quando a criança começa descobrir que pode obter prazer através de seus órgãos sexuais. A masturbação, que coincide com o período do Complexo de Édipo e do Complexo de Castração. Sendo está a grande descoberta que as crianças percebem as diferenças entre as meninas e os meninos. Pessoas com fixação nesta fase podem considerar a masturbação como forma mais satisfatória de sexo; sendo assim, os homens com esse tipo de fixação podem gostar de usar seu pênis para dominar na cama, como forma de poder e mulheres podem desenvolver complexo de inferioridade, se diminuindo, sentindo-se fragilizadas principalmente em relação aos homens. A saída do Complexo de Édipo, marca a entrada do período de latência, recalcando impulsos eróticos da fase fálica, bem como o Complexo de Édipo. Onde os impulsos sexuais podem ser direcionados para outras atividades não sexuais, como trabalhos intelectuais e artísticos. A fase genital chega ao início da puberdade, onde os impulsos sexuais passam novamente a receber atenção; dentro de fantasias, não mais auto-eróticas, mas compartilhadas. Sendo esta a fase onde as pessoas se interessam pela outras de maneira sexual.
Após discorrer sobre a organização da libido segundo Freud, nos torna mais compreensível as fases do desenvolvimento da sexualidade infantil, bem como compreender o que as fixações podem causar no comportamento humano, e como nos remete também, pensar o que a indústria cultural pode interferir nessa construção da sexualidade infantil, através dos conhecimentos que são proporcionados pelos meios de comunicação, que estão presentes a todo momento no nosso cotidiano, essas influências quando chegam a um ser que já nasce com sexualidade desde a infância, faz com que através de suas curiosidades, tenham comportamentos que para alguns de nós adultos são considerados errados, devido as regras que encontram na sociedade, mas que são adquiridos através das modelações que encontram no contexto social que está inserido. Desde modo, basta-nos ter sapiência para proporcionar uma orientação sexual saudável para essas crianças, onde não lhes trará futuros traumas, comprometendo seu desenvolvimento quanto à sexualidade.
Discussões e conclusões
A escola é um espaço de descobertas infantis, através do mundo das fantasias, curiosidades, medos, entre outras sensações, também é espaço de manifestação de sexualidade. Sendo ela um dos meios para se fazer intervenção sobre sexualidade, de modo que as crianças pequenas formem seus conceitos sobre o assunto.
Os educadores se deparam frequentemente com situações ligadas à sexualidade na escola, qualquer que seja a decisão que o educador tome quanto o comportamento da criança quanta a sexualidade repercute na sexualidade, pois o adulto serve para a criança como uma modelação no qual ele pode se referenciar.
É preciso que os educadores vejam a sexualidade infantil como um processo natural de desenvolvimento humano e que estejam atentos às crianças quanto suas verbalizações em relação às curiosidades quanto ao assunto sexualidade.
Portanto a orientação quanto à sexualidade deve estar sempre presente no sentindo de formar cidadãos livres de preconceitos, tabus, buscando uma inserção para conseguir que nossas crianças sejam educadas com objetivos de construir identidade e não que seja cheia de frustrações onde não conseguem se conhecer e buscar transformações em seu interior.
REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ADORNO, T.W. Teoria Freudiana e o Padrão da Propaganda Fascista.
FREUD, S. O Mal-Estar na Civilização. Rio de Janeiro: Imago, ed. 1997.
FREUD, S. Psicologia das massas e análise do eu. In: Obras completas de Sigmund Freud; trad. Dr. I. Izecksohn. Rio de Janeiro: Delta.
FREUD, S. Totem e tabu. In: Obras completas de Sigmund Freud; trad. Dr. J.P. Porto. Rio de Janeiro: Delta.
FREUD, S. (1901-1905). Um caso de Histeria, Três Ensaios Sobre a Sexualidade e outros Trabalhos. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Imago: Rio de Janeiro, 1996
GTPOS, ABIA, ECOS. Guia de Orientação Sexual: diretrizes e metodologia. 4a ed. São Paulo: Casa do psicólogo, 1994.
FILOSOFIA E PSICANÁLISE
"O CONHECIMENTO SE FAZ COM A APROPRIAÇÃO DAS OPORTUNIDADES DE INFORMAÇÃO." Renato Santos
sexta-feira, 5 de novembro de 2010
terça-feira, 2 de novembro de 2010
INTOLERÂNCIA, ÓDIO E TERROR EM NOME DO PAI
É tempo de globalização, do poder do discurso das ciências, do avanço tecnológico, da corrida contra o tempo e em torno da moeda. Muitos são os discursos, entre esses, o do fanatismo religioso e de toda forma de exploração da miséria material e emocional, como é o caso do terrorismo.
A proposta deste artigo é de refletir o problema do terrorismo que se relaciona com a questão da intolerância às diferenças, à identificação massificada com um líder “que detém o poder” e os movimentos fascistas de massa.
Segundo dicionário Aurélio (2004) terrorismo é definido como “conjunto de atos, de violência cometidos por agrupamentos revolucionários” (p.1838). Terrorismo neste artigo deve ser entendido como uma estratégia política que consiste no uso de violência, física e psicológica por indivíduos, ou grupos políticos, contra a ordem estabelecida através de um ataque a um governo ou à população que legitimou.
Para refletir sobre o terrorismo, é necessário partir de hipóteses prováveis. E uma delas é de natureza psicológica: o terrorismo e a agressividade decorrente irrompem individual e socialmente em razão de uma conjunção de fatores psíquicos explicáveis pela psicanálise. Esta hipótese pode ser discutida à luz de contribuições de pensadores e de teóricos, no campo da psicanálise e da filosofia. Algumas questões tratadas por Freud em O mal estar na civilização (1930), Totem e tabu (1913), Uma questão de uma Weltanschauung (1933), Psicologia das massas e análise do eu (1921); e por Adorno no artigo Teoria freudiana e o padrão da propaganda fascista (1951).
Para Freud (1930) a humanidade e sua cultura é uma patologia; sua teoria está fundada na compreensão do sujeito perante suas defesas e estratégias para interagir com o mundo externo.
Em 1913, na obra Totem e tabu, Freud indica a reflexão de que o ser humano ingressa na cultura através da lei do pai. Nesta obra, o autor traz o mito do pai primitivo, que impedia o gozo de todos os seus filhos ao reservar para si o direito de possuir todas as mulheres (inclusive mãe e irmãs), é morto por eles. São esses mesmos membros da horda que irão restaurar a interdição da endogamia ao erigir um totem que simboliza o pai morto. Assim, o tabu ao incesto consolida-se como a primeira lei estabelecida entre os homens, demarcando uma passagem para a vida em civilização e o pacto do laço social.
Na teoria freudiana a Lei é simbólica e rege os homens na condição de seres que habitam a linguagem. E as leis que os homens fazem para regular as relações entre si, tornam-no civilizado?
Em o Mal estar na Civilização (1930), Freud diz que a civilização se impõe ao homem, projetando-o de estado de natureza para o estado da sociedade, à custa de restringir aquilo que é considerado o propósito da vida: a felicidade. Para Freud (1930) as relações sociais são reguladas tendo como base a restrição as liberdades humanas individuais. Estas restrições, se por um lado viabilizam a vida em sociedade, trazem sérias implicações à organização psíquica do ser humano. Que por conta desta liberdade perdida, estará permanentemente em conflito com a civilização, reconhecendo que cada revolução, cada impacto que a humanidade experimenta, é uma tentativa de externar e superar este conflito, esta inquietação. Nas palavras de Freud, O mal estar na civilização:
Grande parte das lutas da humanidade centralizam-se em torno da tarefa única de encontrar uma acomodação conveniente – isto é, uma acomodação que traga felicidade - , entre esse reivindicação do indivíduo e as reivindicações culturais do grupo, e um dos problemas que incide sobre o destino da humanidade é o de saber se tal acomodação pode ser alcançada por meio de alguma forma específica de civilização ou se este conflito é irreconciliável. (FREUD, 1929, P.117)
Freud (1930) apresenta, ainda, a libido como a força que visa unir a todos os homens em comunidades através dos laços libidinais. E trás à tona um outro aspecto da constituição humana: a agressividade. Para esse autor, ela é parte fundamental da natureza humana.
Acredita-se que é o controle e a regulação desta agressividade que tem sido o maior desafio da civilização. A religião, a ética, são resultados destes esforços coibitivos sobre a agressividade humana. Nas palavras de Freud:
Que poderoso obstáculo à civilização a agressividade deve ser, se a defesa contra ela pode causar tanta infelicidade quanto a própria agressividade! A ética ‘natural’, tal como é chamada, nada tem a oferecer aqui, exceto a satisfação narcísica de se poder pensar que se é melhor do que os outros. Nesse ponto, a ética baseada na religião introduz suas promessas de uma vida melhor depois da morte. (FREUD, 1929, P.135)
Freud (1930) afirma que o amor reinante em algumas comunidades só é possível se o grupo identificar algum grupo externo sobre o qual possa descarregar esta agressividade.
Em Psicologia das massas e análise do eu (1921), o mesmo autor, baseado na obra de Le Bon, formula a teoria das identificações, mostrando os efeitos do grupo no indivíduo e a transformação de um agregado de indivíduos em um grupo. Freud (1921), conclui que a sugestionabilidade é um contágio; e que o grupo é “impulsivo, instável e irritável” (p.88), comparando-o entre a vida mental dos primitivos e de crianças.
O grupo está sujeito ao poder de sedução das palavras de um líder, e este para Freud (1921) influencia por meio de idéias que eles próprios acreditam fanaticamente, como é o caso dos terroristas religiosos. Em 1951, Adorno em seu artigo Teoria Freudiana e o Padrão da Propaganda Fascista, chega a afirmar sobre “poderes” (ADORNO, 1951, p.3) que o movimento do fascismo tem, já que este “ideologicamente racionaliza o irracional”. Já que seria impossível ganhar as massas por argumentos racionais, os fascistas utilizam suas propagandas defletida do pensamento discursivo e orientada psicologicamente de forma a mobilizar processos, segundo ele, “irracionais, inconscientes e regressivos” (ADORNO, 1951, p.3).
Assim como na dialética do Senhor e do escravo de Hegel, que traz idéia semelhante que para todo líder há os liderados, em Psicologia das massas e análise do eu, Freud (1921), citando Le Bon diz: “Um grupo é um rebanho obediente, que nunca poderia viver sem um senhor. Possui tal anseio de obediência, que se submete instintivamente a qualquer um que se indique a si próprio como chefe” (Le Bon apud Freud, 1921, p.91).
Adorno (1951), recordando Freud, acredita que a psicologia da massa está relacionada a um tipo de aflição psicológica que leva ao declínio do indivíduo, quando este se submete à vontade de poderosas instâncias coletivas externas. Exemplo disso está nos atuais noticiários, que trazem homens-bombas que se suicidam em nome de Deus e de sua crença religiosa. “Existem homens de ação, inabaláveis em suas convicções, inacessíveis à dúvida, destituídos de sentimentos pelo sofrer dos outros que se opões às suas intenções”, disse Freud (1933, p.176).
Uma importante questão que se coloca é: como um ser humano pode desafiar um dos mais poderosos instintos, o de sobrevivência ou de autopreservação, em nome de crenças religiosas ou ideologias políticas? Não seria o comportamento do terrorista o resultado de uma forte e efetiva doutrinação do seu líder?
Segundo Adorno (1951), Freud queria descobrir o que estava por trás da transformação de indivíduos em uma massa, o que poderia levar a uma manipulação fascista. “Pois o demagogo fascista, tem que obter o apoio de milhões de pessoas para objetivos altamente incompatíveis com seu próprio auto-interesse racional, só pode fazê-lo criando artificialmente o vínculo que Freud está buscando.” (ADORNO, 1951, p.5).
Na teoria freudiana o vínculo que integra os indivíduos em uma massa é a libido. Para Adorno, esta afirmação traz uma importante conseqüência porque rompe com o caráter dos instintos específicos da massa. Nas palavras desse autor:
Como uma rebelião contra a civilização o fascismo não é simplesmente a decorrência do arcaico, mas sua reprodução na e pela civilização. É pouco adequado definir as forças da rebelião fascista simplesmente como poderosas energias do id que se livram da pressão da ordem social existente. Ao invés disto, esta rebelião empresta suas energias em parte de outras instâncias psicológicas que são forçadas a servir o inconsciente. ( ADORNO, 1951, p.6)
O movimento do terrorismo está centrado na idéia do líder, enquanto a função e a imagem que este ocupa, é, segundo Adorno (1951), a “do todo-poderoso e ameaçador pai primitivo” (ADORNO, 1951, p.10).
O que significa isso? Que essa modalidade de liderança e discurso se apresenta por meio de uma figura paterna onipotente?
Ao estabelecer uma ligação entre as obras Totem e tabu (1933) e Psicologia das massas e análise do eu (1921), percebe-se, com efeito, que com a morte de Deus e o assassinato do Pai do patriarcado, as massas – que não conseguem exercer plenamente a sua soberania política – aceitam de bom grado a sedução autoritária. Dessa maneira, o vazio do poder será preenchido por um líder carismático, versão de um novo Deus e de um Pai onipotente.
Para Adorno (1951), a identificação é o mecanismo que transforma a libido na ligação entre líder e liderados, e conforme citado por este autor Freud diz: “a identificação é a expressão mais primitiva de uma ligação emocional com outra pessoa” (Freud apud Adorno, 1951, p.9).
O líder é o depositário do laço social; não é somente um laço de amor, e a explicação pela hipnose ou sugestão não é suficiente. É, então, a operação de cada um do grupo de ter se desapossado do ideal do Eu em favor do líder idealizado que explica o movimento de alguns dentro da massa ao encontro dos atos de violência e agressividade que culminam no terrorismo (Freud,1921). Assim, para Adorno (1951), não há somente a ligação libidinal, mas a própria identidade dos sujeitos que está mal estabelecida.
A análise de Freud (1921) da fragilidade da ordem grupal quando se apóia em mecanismos identificatórios, ligando fanaticamente o indivíduo ao líder e ao grupo, traz uma reflexão: O indivíduo se desfaz de seu direito natural em proveito da civilização, que então exerce o poder que lhe é assim conferido.
Em contrapartida, supõe-se que a agressividade, do ponto de vista do indivíduo, está relacionada com a atitude de hostilidade deste com a civilização, que ele considera em grande parte responsável pela sua desgraça, “na realidade ainda teremos de lutar, durante um tempo incalculável, com as dificuldades que o caráter indomável da natureza humana apresenta a qualquer espécie de comunidade social” (FREUD, 1933, p.176), adverte Freud.
Em última análise, tem-se a religião como motivação por parte de alguns grupos ao ato terrorista. Freud (1933) chega a dizer que “a religião é um poder imenso que tem a seu serviço as mais fortes emoções dos seres humanos” (FREUD, 1933, p.158).
Pode-se destacar grupos religiosos que acreditam na destruição como forma de propagar aquilo que acreditam e acabar com outras linhas religiosas contrárias às ações dos mesmos. Cada grupo religioso é movido a utilizar o terrorismo por questões, cada grupo possui seu motivo particular. Em 1933, Freud em Uma questão de uma Weltanschauung, faz um contraponto da religião à psicanálise:
Enquanto as diferentes religiões altercam entre si pela posse da verdade, nossa opinião reside em que a questão da verdade das crenças religiosas pode ser totalmente colocada à parte. A religião é uma tentativa de obter domínio do mundo perceptível no qual nos situamos, através do mundo dos desejos que desenvolvemos dentro de nós em conseqüência de necessidades biológicas e psicológicas. ( FREUD, 1933, p.164)
Freud (1933) chega a afirmar que a religião é uma ilusão e que é movida em ajustar-se aos nossos impulsos de instintos e desejos. Contudo, este autor deixa alguma esperança quanto ao futuro da humanidade, ao fazer analogia entre o processo civilizatório e o caminho do desenvolvimento individual. É possível afirmar que o social desenvolve um superego sob cuja influência se produz a evolução cultural.
Freud (1930) admite a possibilidade de uma acomodação final, em nível individual. Pode-se esperar, também, que tal ocorrerá com o social, no futuro da civilização, por mais que essa civilização possa oprimir o homem. O superego cultural desenvolveu seus ideais e estabeleceu suas exigências. Entre tantas exigências, contam-se as que tratam as relações dos seres humanos uns com os outros e estão abrangidas sob o título de ética.
Se o desenvolvimento da civilização possui uma semelhança tão grande com o desenvolvimento do indivíduo, e se emprega os mesmos métodos, é possível concluir que, sob a influência de premências culturais, algumas civilizações se tornaram neuróticas. O terrorismo poderia ser encarado, portanto, como produto das neuroses da civilização. Nesse sentido, também a humanidade pode estar esperançosa de que um dia alguém se aventure a se empenhar na elaboração de uma patologia das comunidades culturais.
REFERÊNCIAS:
ADORNO, Theodor W. Teoria Freudiana e o Padrão da Propaganda Fascista. 1951.
FERREIRA, Aurélio B. de Hollanda. Novo Dicionário da Língua Portuguesa. 3. ed. Curitiba.: Positivo, 2004. p.1838.
Freud, S. (1913). Totem e Tabu. Em Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, vols. XIII . Rio de Janeiro: Imago, 1997.
______. (1921). Psicologia das massas e análise do eu. Em Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, vol. XVIII. Rio de Janeiro: Imago, 1997.
______. (1930). O Mal estar na civilização. Em Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, vol.XXI. Rio de Janeiro: Imago, 1997.
______. (1933). Novas conferências introdutórias; conferência XXXV - A questão de uma Weltanschauung. Em Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, vol.XXII. Rio de Janeiro: Imago, 1997.
SAFATLE, V. Freud como teórico da Modernidade Bloqueada. In: Políticas Freudianas. Vitória: 2010.
ALINE MATTOS PERUCH
A proposta deste artigo é de refletir o problema do terrorismo que se relaciona com a questão da intolerância às diferenças, à identificação massificada com um líder “que detém o poder” e os movimentos fascistas de massa.
Segundo dicionário Aurélio (2004) terrorismo é definido como “conjunto de atos, de violência cometidos por agrupamentos revolucionários” (p.1838). Terrorismo neste artigo deve ser entendido como uma estratégia política que consiste no uso de violência, física e psicológica por indivíduos, ou grupos políticos, contra a ordem estabelecida através de um ataque a um governo ou à população que legitimou.
Para refletir sobre o terrorismo, é necessário partir de hipóteses prováveis. E uma delas é de natureza psicológica: o terrorismo e a agressividade decorrente irrompem individual e socialmente em razão de uma conjunção de fatores psíquicos explicáveis pela psicanálise. Esta hipótese pode ser discutida à luz de contribuições de pensadores e de teóricos, no campo da psicanálise e da filosofia. Algumas questões tratadas por Freud em O mal estar na civilização (1930), Totem e tabu (1913), Uma questão de uma Weltanschauung (1933), Psicologia das massas e análise do eu (1921); e por Adorno no artigo Teoria freudiana e o padrão da propaganda fascista (1951).
Para Freud (1930) a humanidade e sua cultura é uma patologia; sua teoria está fundada na compreensão do sujeito perante suas defesas e estratégias para interagir com o mundo externo.
Em 1913, na obra Totem e tabu, Freud indica a reflexão de que o ser humano ingressa na cultura através da lei do pai. Nesta obra, o autor traz o mito do pai primitivo, que impedia o gozo de todos os seus filhos ao reservar para si o direito de possuir todas as mulheres (inclusive mãe e irmãs), é morto por eles. São esses mesmos membros da horda que irão restaurar a interdição da endogamia ao erigir um totem que simboliza o pai morto. Assim, o tabu ao incesto consolida-se como a primeira lei estabelecida entre os homens, demarcando uma passagem para a vida em civilização e o pacto do laço social.
Na teoria freudiana a Lei é simbólica e rege os homens na condição de seres que habitam a linguagem. E as leis que os homens fazem para regular as relações entre si, tornam-no civilizado?
Em o Mal estar na Civilização (1930), Freud diz que a civilização se impõe ao homem, projetando-o de estado de natureza para o estado da sociedade, à custa de restringir aquilo que é considerado o propósito da vida: a felicidade. Para Freud (1930) as relações sociais são reguladas tendo como base a restrição as liberdades humanas individuais. Estas restrições, se por um lado viabilizam a vida em sociedade, trazem sérias implicações à organização psíquica do ser humano. Que por conta desta liberdade perdida, estará permanentemente em conflito com a civilização, reconhecendo que cada revolução, cada impacto que a humanidade experimenta, é uma tentativa de externar e superar este conflito, esta inquietação. Nas palavras de Freud, O mal estar na civilização:
Grande parte das lutas da humanidade centralizam-se em torno da tarefa única de encontrar uma acomodação conveniente – isto é, uma acomodação que traga felicidade - , entre esse reivindicação do indivíduo e as reivindicações culturais do grupo, e um dos problemas que incide sobre o destino da humanidade é o de saber se tal acomodação pode ser alcançada por meio de alguma forma específica de civilização ou se este conflito é irreconciliável. (FREUD, 1929, P.117)
Freud (1930) apresenta, ainda, a libido como a força que visa unir a todos os homens em comunidades através dos laços libidinais. E trás à tona um outro aspecto da constituição humana: a agressividade. Para esse autor, ela é parte fundamental da natureza humana.
Acredita-se que é o controle e a regulação desta agressividade que tem sido o maior desafio da civilização. A religião, a ética, são resultados destes esforços coibitivos sobre a agressividade humana. Nas palavras de Freud:
Que poderoso obstáculo à civilização a agressividade deve ser, se a defesa contra ela pode causar tanta infelicidade quanto a própria agressividade! A ética ‘natural’, tal como é chamada, nada tem a oferecer aqui, exceto a satisfação narcísica de se poder pensar que se é melhor do que os outros. Nesse ponto, a ética baseada na religião introduz suas promessas de uma vida melhor depois da morte. (FREUD, 1929, P.135)
Freud (1930) afirma que o amor reinante em algumas comunidades só é possível se o grupo identificar algum grupo externo sobre o qual possa descarregar esta agressividade.
Em Psicologia das massas e análise do eu (1921), o mesmo autor, baseado na obra de Le Bon, formula a teoria das identificações, mostrando os efeitos do grupo no indivíduo e a transformação de um agregado de indivíduos em um grupo. Freud (1921), conclui que a sugestionabilidade é um contágio; e que o grupo é “impulsivo, instável e irritável” (p.88), comparando-o entre a vida mental dos primitivos e de crianças.
O grupo está sujeito ao poder de sedução das palavras de um líder, e este para Freud (1921) influencia por meio de idéias que eles próprios acreditam fanaticamente, como é o caso dos terroristas religiosos. Em 1951, Adorno em seu artigo Teoria Freudiana e o Padrão da Propaganda Fascista, chega a afirmar sobre “poderes” (ADORNO, 1951, p.3) que o movimento do fascismo tem, já que este “ideologicamente racionaliza o irracional”. Já que seria impossível ganhar as massas por argumentos racionais, os fascistas utilizam suas propagandas defletida do pensamento discursivo e orientada psicologicamente de forma a mobilizar processos, segundo ele, “irracionais, inconscientes e regressivos” (ADORNO, 1951, p.3).
Assim como na dialética do Senhor e do escravo de Hegel, que traz idéia semelhante que para todo líder há os liderados, em Psicologia das massas e análise do eu, Freud (1921), citando Le Bon diz: “Um grupo é um rebanho obediente, que nunca poderia viver sem um senhor. Possui tal anseio de obediência, que se submete instintivamente a qualquer um que se indique a si próprio como chefe” (Le Bon apud Freud, 1921, p.91).
Adorno (1951), recordando Freud, acredita que a psicologia da massa está relacionada a um tipo de aflição psicológica que leva ao declínio do indivíduo, quando este se submete à vontade de poderosas instâncias coletivas externas. Exemplo disso está nos atuais noticiários, que trazem homens-bombas que se suicidam em nome de Deus e de sua crença religiosa. “Existem homens de ação, inabaláveis em suas convicções, inacessíveis à dúvida, destituídos de sentimentos pelo sofrer dos outros que se opões às suas intenções”, disse Freud (1933, p.176).
Uma importante questão que se coloca é: como um ser humano pode desafiar um dos mais poderosos instintos, o de sobrevivência ou de autopreservação, em nome de crenças religiosas ou ideologias políticas? Não seria o comportamento do terrorista o resultado de uma forte e efetiva doutrinação do seu líder?
Segundo Adorno (1951), Freud queria descobrir o que estava por trás da transformação de indivíduos em uma massa, o que poderia levar a uma manipulação fascista. “Pois o demagogo fascista, tem que obter o apoio de milhões de pessoas para objetivos altamente incompatíveis com seu próprio auto-interesse racional, só pode fazê-lo criando artificialmente o vínculo que Freud está buscando.” (ADORNO, 1951, p.5).
Na teoria freudiana o vínculo que integra os indivíduos em uma massa é a libido. Para Adorno, esta afirmação traz uma importante conseqüência porque rompe com o caráter dos instintos específicos da massa. Nas palavras desse autor:
Como uma rebelião contra a civilização o fascismo não é simplesmente a decorrência do arcaico, mas sua reprodução na e pela civilização. É pouco adequado definir as forças da rebelião fascista simplesmente como poderosas energias do id que se livram da pressão da ordem social existente. Ao invés disto, esta rebelião empresta suas energias em parte de outras instâncias psicológicas que são forçadas a servir o inconsciente. ( ADORNO, 1951, p.6)
O movimento do terrorismo está centrado na idéia do líder, enquanto a função e a imagem que este ocupa, é, segundo Adorno (1951), a “do todo-poderoso e ameaçador pai primitivo” (ADORNO, 1951, p.10).
O que significa isso? Que essa modalidade de liderança e discurso se apresenta por meio de uma figura paterna onipotente?
Ao estabelecer uma ligação entre as obras Totem e tabu (1933) e Psicologia das massas e análise do eu (1921), percebe-se, com efeito, que com a morte de Deus e o assassinato do Pai do patriarcado, as massas – que não conseguem exercer plenamente a sua soberania política – aceitam de bom grado a sedução autoritária. Dessa maneira, o vazio do poder será preenchido por um líder carismático, versão de um novo Deus e de um Pai onipotente.
Para Adorno (1951), a identificação é o mecanismo que transforma a libido na ligação entre líder e liderados, e conforme citado por este autor Freud diz: “a identificação é a expressão mais primitiva de uma ligação emocional com outra pessoa” (Freud apud Adorno, 1951, p.9).
O líder é o depositário do laço social; não é somente um laço de amor, e a explicação pela hipnose ou sugestão não é suficiente. É, então, a operação de cada um do grupo de ter se desapossado do ideal do Eu em favor do líder idealizado que explica o movimento de alguns dentro da massa ao encontro dos atos de violência e agressividade que culminam no terrorismo (Freud,1921). Assim, para Adorno (1951), não há somente a ligação libidinal, mas a própria identidade dos sujeitos que está mal estabelecida.
A análise de Freud (1921) da fragilidade da ordem grupal quando se apóia em mecanismos identificatórios, ligando fanaticamente o indivíduo ao líder e ao grupo, traz uma reflexão: O indivíduo se desfaz de seu direito natural em proveito da civilização, que então exerce o poder que lhe é assim conferido.
Em contrapartida, supõe-se que a agressividade, do ponto de vista do indivíduo, está relacionada com a atitude de hostilidade deste com a civilização, que ele considera em grande parte responsável pela sua desgraça, “na realidade ainda teremos de lutar, durante um tempo incalculável, com as dificuldades que o caráter indomável da natureza humana apresenta a qualquer espécie de comunidade social” (FREUD, 1933, p.176), adverte Freud.
Em última análise, tem-se a religião como motivação por parte de alguns grupos ao ato terrorista. Freud (1933) chega a dizer que “a religião é um poder imenso que tem a seu serviço as mais fortes emoções dos seres humanos” (FREUD, 1933, p.158).
Pode-se destacar grupos religiosos que acreditam na destruição como forma de propagar aquilo que acreditam e acabar com outras linhas religiosas contrárias às ações dos mesmos. Cada grupo religioso é movido a utilizar o terrorismo por questões, cada grupo possui seu motivo particular. Em 1933, Freud em Uma questão de uma Weltanschauung, faz um contraponto da religião à psicanálise:
Enquanto as diferentes religiões altercam entre si pela posse da verdade, nossa opinião reside em que a questão da verdade das crenças religiosas pode ser totalmente colocada à parte. A religião é uma tentativa de obter domínio do mundo perceptível no qual nos situamos, através do mundo dos desejos que desenvolvemos dentro de nós em conseqüência de necessidades biológicas e psicológicas. ( FREUD, 1933, p.164)
Freud (1933) chega a afirmar que a religião é uma ilusão e que é movida em ajustar-se aos nossos impulsos de instintos e desejos. Contudo, este autor deixa alguma esperança quanto ao futuro da humanidade, ao fazer analogia entre o processo civilizatório e o caminho do desenvolvimento individual. É possível afirmar que o social desenvolve um superego sob cuja influência se produz a evolução cultural.
Freud (1930) admite a possibilidade de uma acomodação final, em nível individual. Pode-se esperar, também, que tal ocorrerá com o social, no futuro da civilização, por mais que essa civilização possa oprimir o homem. O superego cultural desenvolveu seus ideais e estabeleceu suas exigências. Entre tantas exigências, contam-se as que tratam as relações dos seres humanos uns com os outros e estão abrangidas sob o título de ética.
Se o desenvolvimento da civilização possui uma semelhança tão grande com o desenvolvimento do indivíduo, e se emprega os mesmos métodos, é possível concluir que, sob a influência de premências culturais, algumas civilizações se tornaram neuróticas. O terrorismo poderia ser encarado, portanto, como produto das neuroses da civilização. Nesse sentido, também a humanidade pode estar esperançosa de que um dia alguém se aventure a se empenhar na elaboração de uma patologia das comunidades culturais.
REFERÊNCIAS:
ADORNO, Theodor W. Teoria Freudiana e o Padrão da Propaganda Fascista. 1951.
FERREIRA, Aurélio B. de Hollanda. Novo Dicionário da Língua Portuguesa. 3. ed. Curitiba.: Positivo, 2004. p.1838.
Freud, S. (1913). Totem e Tabu. Em Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, vols. XIII . Rio de Janeiro: Imago, 1997.
______. (1921). Psicologia das massas e análise do eu. Em Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, vol. XVIII. Rio de Janeiro: Imago, 1997.
______. (1930). O Mal estar na civilização. Em Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, vol.XXI. Rio de Janeiro: Imago, 1997.
______. (1933). Novas conferências introdutórias; conferência XXXV - A questão de uma Weltanschauung. Em Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, vol.XXII. Rio de Janeiro: Imago, 1997.
SAFATLE, V. Freud como teórico da Modernidade Bloqueada. In: Políticas Freudianas. Vitória: 2010.
ALINE MATTOS PERUCH
segunda-feira, 30 de agosto de 2010
TANTO PARA SÓCRATES QUANTO PARA A MODALIDADE EAD O SABER É UMA ELABORAÇAO INDIVIDUAL DO SUJEITO
Sócrates é uma das principais figuras da Filosofia Antiga e um dos filósofos mais conhecidos de toda a História da Filosofia. No entanto, deste grande mestre do pensamento nada ficou, por si, escrito. Todavia, sabe-se que se dedicou, sobretudo, ao ensino e ao conhecimento da virtude. Pesquisando sobre o método socrático – a Maiêutica, relata que Sócrates passava grande parte do tempo lecionando a jovens, através de conversas informais. As aulas eram ministradas na loja de um sapateiro, em frente ao marco da Ágora, o centro comercial de Atenas. Era comum que conversasse e debatesse nas ruas, livremente (Strathern, 1998). Ele desenvolveu um método de argumentação chamado de dialética (precursor da lógica). Esse método envolve uma profunda análise conceitual. Sócrates sempre propunha a questão “o que é? ...”, através da qual se buscava a definição de uma determinada coisa, em geral uma virtude ou qualidade moral (Marcondes, 2000; Strathern, 1998). O debatedor deveria responder claramente ao que lhe era perguntado, freqüentemente respondendo simplesmente sim ou não (Nielsen Neto, 1985). Sócrates representa, para a Filosofia Ocidental, o paradigma da autonomia da consciência. Ele ficou na história como o modelo do filósofo, não apenas por ter levado a defesa das suas posições ao ponto supremo da coragem e da coerência, enfrentando a condenação à morte com a maior serenidade, como ainda porque fez da sua própria vida um exercício filosófico (que foi a sua obra filosófica por excelência). Diferentemente dos sofistas, o homem, é ele próprio, entendido como um enigma a decifrar. O papel do filósofo, portanto, não é o de apresentar respostas prontas, mas de ajudar os seus interlocutores, outros indivíduos, através da dialética e do diálogo, para que venham a dar à luz suas próprias idéias. Os passos básicos do método maiêutico são primeiramente questionar o interlocutor, de forma que ele exponha as suas idéias, provocando-o a explicitar suas crenças e questionando-o, para que ele fundamente suas idéias e crenças. Após, freqüentemente utilizando-se de ironia, deve-se problematizar essas crenças, fazendo com que o interlocutor caia em contradição, reconhecendo insuficiências e expondo inconsistências, até que ele conclua que não sabe tanto quanto acreditava em relação ao que está expondo – o reconhecimento da ignorância é o princípio da sabedoria; A partir daí o indivíduo tem o caminho aberto para a busca da verdade, livrando-se de meras opiniões e encontrando o caminho para o conhecimento (Marcondes,2000). Com esse método, Sócrates não oferecia respostas prontas aos seus alunos. Para ele, todo conhecimento era inato, a ação do filósofo era ajudar o indivíduo a chegar ao conhecimento que já possuía antes mesmo de nascer (Nielsen Neto, 1985). Ele jamais respondia as questões que formulava, apenas indicava ao seu interlocutor as respostas insatisfatórias e porque assim o eram. Com isso, Sócrates indicava somente o caminho que deveria ser percorrido pelo próprio indivíduo. Temos aí a origem da palavra método, que significa “através de um caminho”. Para Sócrates, virtude é conhecimento, e o conhecimento que ele liga à virtude é a episteme (conhecimento racional) e não a doxa (opinião). Como pode-se perceber, mesmo com todo o avanço nos métodos de ensino e de construção do conhecimento, os ensinamentos de Sócrates podem ser considerados até certo ponto inovadores para os dias de hoje, se considerarmos o ensino tradicional. A proposta de Educação EAD, pretende harmonizar o conhecimento como uma necessidade pessoal do sujeito. A partir do momento em que o indivíduo percebe seu desejo ao conhecimento, ele se cerca de métodos e formas em busca dos saberes. A proposta EAD proporciona responsabilidade pela busca do sujeito aos contextos intelectuais presentes no mundo contemporâneo e esta busca lhe permite atravessar fases e aprimorar sua inserção intelectual e moral no meio social em que vive. Enfim, ser mestre, ser aprendiz, envolver-se com o conhecimento é contextualizar o ser humano emancipado em um mundo que precisa de parâmetros para o bem estar em todos os apectos. Se antes, pela impossibilidade de acesso presencial as faculdades intelectuais, o indivíduo estava limitado quanto ao conhecimento, hoje, com a proposta EAD estes limites foram interrompidos e a tecnologia possibilitou a mestres e aprendizes compartilharem experiências dos saberes tendo a disposição o conhecimento e o direito de intervir e de contribuir nesse processo de ensino e aprendizagem. Para Sócrates, todo conhecimento era inato, a ação do filósofo era ajudar o indivíduo a chegar ao conhecimento que já possuía antes mesmo de nascer, pensando desta maneira podemos perceber que tanto para Sócrates quanto para a modalidade EAD o saber é uma elaboração individual do sujeito. O tutor, ao estimular o aprendizado, aponta que o mesmo não está pronto e acabado. Precisa continuamente passar por uma constante revisão e transformação.
domingo, 29 de agosto de 2010
A PROPOSTA DE APRENDIZAGEM SOFISTA x A PROPOSTA DE APRENDIZAGEM EAD.
A proposta de aprendizagem dos sofistas que foram os primeiros professores se ampara na presença do orador para induzir o espectador, por meio do método de divulgação do saber e na produção do pensamento. A transmissão do saber sofístico corresponde ao modelo de Conferência e da Assembléia. A função dos sofistas era de educar, preparar o indivíduo para sua participação na sociedade.
Deste modo o saber localiza-se em quem está discursando, o sofista. Aos ouvintes, constituinte da plenária cabe receber os conhecimentos. Os sofistas têm como objetivos sedução, fazendo com que ao final possa garantir que todos concordem com as idéias transmitidas, fazendo valer suas idéias, conceitos e alienando-se a sua opinião e não a verdade. Essa transmissão de conhecimentos e sistemas prontos impede que haja crescimento e criticidade em qualquer modalidade do ensino.
Quando se refere a educação tradicional estamos nos referindo ao modelo sofista, sendo os professores que transmitem o saber e são considerados os únicos responsáveis por transmitir os conhecimentos. Essa transmissão de conhecimento é realizada de forma que os alunos acreditam não possuí-lo.
Portanto o saber está com quem transmite o conhecimento que é o professor e que precisa ser adquirido por aquele que não o possui. Sendo assim o saber é algo que pode ser adquirido e será realizado através da transmissão, por meio de exposição de idéias, em que o estudante deve se colocar na posição de receptor enquanto o mestre um hábil orador. O bom mestre, nessa perspectiva, é aquele capaz de manter o silêncio necessário para a apropriação do conhecimento e faz transposição didática, “traduzindo” os conceitos para os estudantes.
Nas propostas de aprendizagens dos sofistas e EAD o professor assume uma postura diferenciada. Os sofistas procuram provocar reações prazerosas nos espectadores, utilizando especialistas de sedução a fim de conduzir conhecimentos. Aqui a presença do orador/professor torna-se imprescindível. É ele que induz o espectador por meio de sugestão à reprodução do pensamento. Para a proposta de aprendizagem em EAD a função do professor é de não entrar na relação com o aluno, como aquele que possui o saber, mas compreender as diferentes formas de aprender do aluno e acompanhar seu processo de aprendizagem numa atitude de orientador sobre a trajetória de cada aluno.
A proposta da educação em EAD é a de interagir com o conhecimento baseando-se nas possibilidades e oportunidades ofertadas pela modalidade educacional. Em uma sociedade moderna e globalizada a informação é instantânea e os meios para alcançá-las são precisos e disponíveis a todos.
Portanto, cabe ao professor buscar compreender, julgar e compartilhar o conhecimento, considerando o aluno como instrumento de emancipação, e a partir de uma perspectiva de democratização das oportunidades educacionais, nas sociedades da "informação" ou do "saber".
A modalidade EAD, tão utilizada na atualidade, possibilita o aluno a ser autônomo, a falar e a pensar por si mesmo; propõe uma relação de trocas e interações entre mestre e aprendiz, promovendo o crescimento conjunto, porém de aprendizagem individualizada. Para o tão estudado e difundido, pelos mestres contemporâneos, Paulo Freire (1996): “ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua própria produção ou a sua construção” e é nisso que nós professores temos errado, nós não fazemos o aluno pensar, pois para isso, é preciso saber pensar. E, de acordo com Demo (2000): “saber pensar não é só pensar. É também, e sobretudo, saber intervir. Teoria e prática, e vice-versa”.
Enfim, diante estudos da proposta de aprendizagem dos sofistas, observamos alguns pontos que já foram citados acima, que os vemos como negativos quando se fala numa construção de um sujeito pensante, reflexivo e ativo na sociedade, mas, no entanto, não podemos deixar de discorrer, que esta proposta de aprendizagem faz parte da história progressiva das propostas de aprendizagens, assim, tem o seu valor e sabemos que até hoje não deixa de ser utilizada, contudo, precisamos conhecê-las e termos sabedoria para melhor aplica-las conforme a necessidade que temos diante a construção do saber que desejamos proporcionar.
Como exemplo podemos citar as vídeos conferências que temos na metodologia EAD e que são práticas sofistas, mas no entanto, é necessário que a tenhamos como parte integrante da metodologia de ensino, para que possamos alcançar grande número de pessoas que são os cursistas, mas, a metodologia de ensino não se encerra somente nessa prática, abrindo espaços para outras práticas metodológicas que são as práticas em EAD, e também socráticas (pequenos grupos organizados para estudos) que não precisamos aqui nos aprofundar, devido o nosso texto ser baseado na postura sofistica e a comparação com a proposta em EAD.
Deste modo o saber localiza-se em quem está discursando, o sofista. Aos ouvintes, constituinte da plenária cabe receber os conhecimentos. Os sofistas têm como objetivos sedução, fazendo com que ao final possa garantir que todos concordem com as idéias transmitidas, fazendo valer suas idéias, conceitos e alienando-se a sua opinião e não a verdade. Essa transmissão de conhecimentos e sistemas prontos impede que haja crescimento e criticidade em qualquer modalidade do ensino.
Quando se refere a educação tradicional estamos nos referindo ao modelo sofista, sendo os professores que transmitem o saber e são considerados os únicos responsáveis por transmitir os conhecimentos. Essa transmissão de conhecimento é realizada de forma que os alunos acreditam não possuí-lo.
Portanto o saber está com quem transmite o conhecimento que é o professor e que precisa ser adquirido por aquele que não o possui. Sendo assim o saber é algo que pode ser adquirido e será realizado através da transmissão, por meio de exposição de idéias, em que o estudante deve se colocar na posição de receptor enquanto o mestre um hábil orador. O bom mestre, nessa perspectiva, é aquele capaz de manter o silêncio necessário para a apropriação do conhecimento e faz transposição didática, “traduzindo” os conceitos para os estudantes.
Nas propostas de aprendizagens dos sofistas e EAD o professor assume uma postura diferenciada. Os sofistas procuram provocar reações prazerosas nos espectadores, utilizando especialistas de sedução a fim de conduzir conhecimentos. Aqui a presença do orador/professor torna-se imprescindível. É ele que induz o espectador por meio de sugestão à reprodução do pensamento. Para a proposta de aprendizagem em EAD a função do professor é de não entrar na relação com o aluno, como aquele que possui o saber, mas compreender as diferentes formas de aprender do aluno e acompanhar seu processo de aprendizagem numa atitude de orientador sobre a trajetória de cada aluno.
A proposta da educação em EAD é a de interagir com o conhecimento baseando-se nas possibilidades e oportunidades ofertadas pela modalidade educacional. Em uma sociedade moderna e globalizada a informação é instantânea e os meios para alcançá-las são precisos e disponíveis a todos.
Portanto, cabe ao professor buscar compreender, julgar e compartilhar o conhecimento, considerando o aluno como instrumento de emancipação, e a partir de uma perspectiva de democratização das oportunidades educacionais, nas sociedades da "informação" ou do "saber".
A modalidade EAD, tão utilizada na atualidade, possibilita o aluno a ser autônomo, a falar e a pensar por si mesmo; propõe uma relação de trocas e interações entre mestre e aprendiz, promovendo o crescimento conjunto, porém de aprendizagem individualizada. Para o tão estudado e difundido, pelos mestres contemporâneos, Paulo Freire (1996): “ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua própria produção ou a sua construção” e é nisso que nós professores temos errado, nós não fazemos o aluno pensar, pois para isso, é preciso saber pensar. E, de acordo com Demo (2000): “saber pensar não é só pensar. É também, e sobretudo, saber intervir. Teoria e prática, e vice-versa”.
Enfim, diante estudos da proposta de aprendizagem dos sofistas, observamos alguns pontos que já foram citados acima, que os vemos como negativos quando se fala numa construção de um sujeito pensante, reflexivo e ativo na sociedade, mas, no entanto, não podemos deixar de discorrer, que esta proposta de aprendizagem faz parte da história progressiva das propostas de aprendizagens, assim, tem o seu valor e sabemos que até hoje não deixa de ser utilizada, contudo, precisamos conhecê-las e termos sabedoria para melhor aplica-las conforme a necessidade que temos diante a construção do saber que desejamos proporcionar.
Como exemplo podemos citar as vídeos conferências que temos na metodologia EAD e que são práticas sofistas, mas no entanto, é necessário que a tenhamos como parte integrante da metodologia de ensino, para que possamos alcançar grande número de pessoas que são os cursistas, mas, a metodologia de ensino não se encerra somente nessa prática, abrindo espaços para outras práticas metodológicas que são as práticas em EAD, e também socráticas (pequenos grupos organizados para estudos) que não precisamos aqui nos aprofundar, devido o nosso texto ser baseado na postura sofistica e a comparação com a proposta em EAD.
ENTENDE-SE POR JACQUES RANCIÉRE QUE, A EMANCIPAÇÃO INTELECTUAL DEVE ESTAR PRESENTE NA ALMA DO APRENDIZ DE NOSSOS TEMPOS (presencial ou EAD)
O francês Jacques Ranciére tem como base o método de aprendizagem proposto pelo mestre Joseph Jacotot (séc. XIX) que consiste no termo emancipação intelectual. O mestre encaminha o aluno a utilizar sua própria inteligência. Diferente de Sócrates, ele não induz seu interlocutor ao contexto da aprendizagem, mas, fomenta seu desejo pelo conhecimento que o fará buscar incessantemente o saber, emancipando-se intelectualmente do “mestre ignorante”. A emancipação intelectual descrita por Jacotot deixa claro que, a autonomia do aluno quanto a busca do saber o libertará das alienações dos sistemas de conhecimentos ideológicos. O papel do professor não é ensinar e sim participar do aprendizado como um incentivador.
Considerando que o sujeito tem como mestre o inconsciente que controla os seus desejos, entende-se, que o encontro destes mestres (o inconsciente) permite simbolizar as experiências e relacioná-las com o saber, elaborando, portanto, novas representações do conhecimento e dos saberes existentes. Os caminhos dos saberes já trilhados tornam-se fontes de buscas e pesquisas para se aprimorar o aprendizado. O mestre emancipador propõe um conhecimento sem limites em que o inconsciente, segundo Lacan, vai determinar o desejo da busca pelo conhecimento.
Jacotot, sem conhecer a língua holandesa, utilizou-se de uma oportunidade (revista bilíngüe Télémaque) para ensinar literatura francesa à holandeses. Os alunos sem uma mestria aparente surpreenderam o “mestre” que nada fez exceto, fomentar o desejo pelo conhecimento em seus aprendizes. Para Jacotot, o acaso ocorrido em sua experiência com seus alunos, lhe permitiu perceber que a evidência cega de todo sistema de conhecimento e ensino do mestre não é, absolutamente, necessária. Se o mestre ensina, ele impede seu aluno de aprender sozinho e, portanto, limita seu aprendizado a contextos superficiais do conteúdo ensinado. Inicialmente o mestre explicador, mero transmissor de conhecimentos apropriados de um livro ou outro mestre que sistematizou um saber, faz um conjunto de raciocínios para explicar outro raciocínio limitado ao conhecimento intencional. Decreta o aprendizado do aluno aos limites da ignorância que ele mesmo impõe e verifica se o aluno entendeu o que ele ensinou. Para Jacotot, este é o princípio do emburrecimento. Em contrapartida o mestre emancipador utiliza-se do método que deixa o aluno em um lugar de igualdade diante do mestre que em seu legado sabe que o aluno pode aprender sem mestre e sua posição é de fomentar, estimular e materializar o conhecimento.
Sócrates questionou a mestria dos sofistas e foi criticado por Ranciére em seus métodos de ensino. Entretanto, atualmente, pode-se visualizar ao logo dos tempos os diferentes momentos em que se organizou a educação. No início não havia escolas, já que a educação era exercida pelo conjunto dos seus membros. A criação da escola institucionalizada foi se tornando cada vez mais complexa e regimentada por uma minoria. Muitos pensadores contribuíram para o desenvolvimento de métodos e posturas na educação e hoje pode-se olhar para o passado e remontar um futuro com as ferramentas educacionais do presente, estimulando o indivíduo à criticidade e envolvimento com o saber. Portanto, em tempos modernos, no ensino de qualidade não deve haver diferença entre a metodologia utilizada no ensino presencial e a distância. As metodologias mais eficientes no ensino presencial são também as mais adequadas ao ensino a distância. Pedagogia por projetos, trabalho colaborativo, inteligências múltiplas, resolução de problemas, desenvolvimento de competências, autonomia, pró-atividade, aprender a aprender, são métodos, técnicas, estratégias e posturas que devem ser utilizados tanto no ensino presencial quanto no ensino a distância. Fala-se muito sobre "o aluno como centro do processo de ensino-aprendizagem" e "um novo papel para o professor, que deixa de ser o transmissor de conhecimentos e passa a ser um facilitador do processo", como características do EAD. As estratégias de ensino devem incorporar as novas formas de comunicação e, também, incorporar o potencial de informação da Internet. A emancipação intelectual deve estar presente na alma do aprendiz de nossos tempos (presencial ou EAD) pois só assim poderá apropriar-se do saber e da utilização da interatividade na aprendizagem que hoje, passa a apresentar uma nova dimensão, potencializada pela Internet e suas ferramentas. Acredito que, em breve, o termo Educação a Distância possa deixar de existir. Não se fala ao telefone "a distância", simplesmente fala-se ao telefone. Não se envia um e-mail "a distância", simplesmente envia-se um e-mail ou um arquivo anexado. Da mesma forma, não se ensina ou se aprende "a distância", simplesmente ensina-se ou aprende-se, com uso das tecnologias disponíveis, de forma presencial ou não presencial.
Considerando que o sujeito tem como mestre o inconsciente que controla os seus desejos, entende-se, que o encontro destes mestres (o inconsciente) permite simbolizar as experiências e relacioná-las com o saber, elaborando, portanto, novas representações do conhecimento e dos saberes existentes. Os caminhos dos saberes já trilhados tornam-se fontes de buscas e pesquisas para se aprimorar o aprendizado. O mestre emancipador propõe um conhecimento sem limites em que o inconsciente, segundo Lacan, vai determinar o desejo da busca pelo conhecimento.
Jacotot, sem conhecer a língua holandesa, utilizou-se de uma oportunidade (revista bilíngüe Télémaque) para ensinar literatura francesa à holandeses. Os alunos sem uma mestria aparente surpreenderam o “mestre” que nada fez exceto, fomentar o desejo pelo conhecimento em seus aprendizes. Para Jacotot, o acaso ocorrido em sua experiência com seus alunos, lhe permitiu perceber que a evidência cega de todo sistema de conhecimento e ensino do mestre não é, absolutamente, necessária. Se o mestre ensina, ele impede seu aluno de aprender sozinho e, portanto, limita seu aprendizado a contextos superficiais do conteúdo ensinado. Inicialmente o mestre explicador, mero transmissor de conhecimentos apropriados de um livro ou outro mestre que sistematizou um saber, faz um conjunto de raciocínios para explicar outro raciocínio limitado ao conhecimento intencional. Decreta o aprendizado do aluno aos limites da ignorância que ele mesmo impõe e verifica se o aluno entendeu o que ele ensinou. Para Jacotot, este é o princípio do emburrecimento. Em contrapartida o mestre emancipador utiliza-se do método que deixa o aluno em um lugar de igualdade diante do mestre que em seu legado sabe que o aluno pode aprender sem mestre e sua posição é de fomentar, estimular e materializar o conhecimento.
Sócrates questionou a mestria dos sofistas e foi criticado por Ranciére em seus métodos de ensino. Entretanto, atualmente, pode-se visualizar ao logo dos tempos os diferentes momentos em que se organizou a educação. No início não havia escolas, já que a educação era exercida pelo conjunto dos seus membros. A criação da escola institucionalizada foi se tornando cada vez mais complexa e regimentada por uma minoria. Muitos pensadores contribuíram para o desenvolvimento de métodos e posturas na educação e hoje pode-se olhar para o passado e remontar um futuro com as ferramentas educacionais do presente, estimulando o indivíduo à criticidade e envolvimento com o saber. Portanto, em tempos modernos, no ensino de qualidade não deve haver diferença entre a metodologia utilizada no ensino presencial e a distância. As metodologias mais eficientes no ensino presencial são também as mais adequadas ao ensino a distância. Pedagogia por projetos, trabalho colaborativo, inteligências múltiplas, resolução de problemas, desenvolvimento de competências, autonomia, pró-atividade, aprender a aprender, são métodos, técnicas, estratégias e posturas que devem ser utilizados tanto no ensino presencial quanto no ensino a distância. Fala-se muito sobre "o aluno como centro do processo de ensino-aprendizagem" e "um novo papel para o professor, que deixa de ser o transmissor de conhecimentos e passa a ser um facilitador do processo", como características do EAD. As estratégias de ensino devem incorporar as novas formas de comunicação e, também, incorporar o potencial de informação da Internet. A emancipação intelectual deve estar presente na alma do aprendiz de nossos tempos (presencial ou EAD) pois só assim poderá apropriar-se do saber e da utilização da interatividade na aprendizagem que hoje, passa a apresentar uma nova dimensão, potencializada pela Internet e suas ferramentas. Acredito que, em breve, o termo Educação a Distância possa deixar de existir. Não se fala ao telefone "a distância", simplesmente fala-se ao telefone. Não se envia um e-mail "a distância", simplesmente envia-se um e-mail ou um arquivo anexado. Da mesma forma, não se ensina ou se aprende "a distância", simplesmente ensina-se ou aprende-se, com uso das tecnologias disponíveis, de forma presencial ou não presencial.
sexta-feira, 27 de agosto de 2010
A MESTRIA DE LACAN E A TRANSMISSÃO NA PSICANÁLISE: CONTRIBUIÇÕES NA MODALIDADE DE ENSINO A DISTÂNCIA
Jacques Lacan considera que o sujeito tem como mestre o inconsciente. E o sujeito do inconsciente não se equivale ao “eu” da consciência, o eu do penso, eu sou. Parafraseando Lacan (Meu Ensino, p.45): “O sujeito que nos interessa – sujeito não na medida em que faz o discurso, mas em que é feito por ele, (...) – é o sujeito da enunciação”. Por isso, Lacan vai dizer que esse discurso é o discurso do inconsciente que nos governa, nos comanda, rompendo com a idéia de que possa haver um Eu capaz de controlar e comandar o próprio desejo.
Em psicanálise, fala-se no saber inconsciente, este pois, não é da mesma ordem do conhecimento produzido na ciência. Na metodologia da educação tradicional, o mestre responde do lugar do saber, ensina falando como deve ser, tomando o aluno como lugar de objeto, assim exerce o comando pelo poder. Lacan, em um de seus seminários, cita o diálogo no qual Sócrates faz perguntas a um escravo, porém, no diálogo, Sócrates induz o pensar do escravo, na crítica de Lacan o que Sócrates faz é “arrebatar do escravo sua função no plano do saber” (O Avesso da Psicanálise, 1969).
A mestria de Lacan é ficar no lugar de desentendido, de ignorante, conforme pontua em O saber do Psicanalista, 1981. A psicanálise não faz uso do saber para exercer domínio sobre o outro, mas sim sendo agente causa de desejo, provocando, no outro, o desejo do saber. Contudo, se é desejo, marca-se como falta; falta que faz produzir. E é exatamente porque o saber em psicanálise é furado, faltoso é impossível transmiti-lo por completo. Assim, em 1964, Lacan cria o Ato de Fundação e estabelece um dispositivo, considerado como órgão de base da Escola, o chamado Cartel, que obedece a sua lógica que é a de um saber não totalizado.
O Cartel se constitui por decisão de seus membros, visando o estudo e a produção acerca de um tema. É uma estrutura composta de três a cinco pessoas e o mais-um, que zela pela tarefa. Os membros que compõe o Cartel trabalham tentando decifrar um saber que lhe afeta, e a resposta depende do trabalho de cada sujeito. Através do Cartel que, também, faz-se a transmissão na psicanálise.
A proposta do EAD vem ao encontro da dinâmica que rege o cartel na medida em que o orientador não dispõe do discurso do líder; é como o mais-um entre os aprendizes. No ensino a distância, assim como no cartel, a produção do saber, do não-todo saber, embora individual, não tem dono, “pertence a todo conjunto”.
Tanto para a Psicanálise quanto para a modalidade EAD, o saber é uma elaboração individual do sujeito. O tutor, ao estimular o aprendizado, aponta que o mesmo não está pronto e acabado. Precisa continuamente passar por uma constante revisão e transformação.
Em psicanálise, fala-se no saber inconsciente, este pois, não é da mesma ordem do conhecimento produzido na ciência. Na metodologia da educação tradicional, o mestre responde do lugar do saber, ensina falando como deve ser, tomando o aluno como lugar de objeto, assim exerce o comando pelo poder. Lacan, em um de seus seminários, cita o diálogo no qual Sócrates faz perguntas a um escravo, porém, no diálogo, Sócrates induz o pensar do escravo, na crítica de Lacan o que Sócrates faz é “arrebatar do escravo sua função no plano do saber” (O Avesso da Psicanálise, 1969).
A mestria de Lacan é ficar no lugar de desentendido, de ignorante, conforme pontua em O saber do Psicanalista, 1981. A psicanálise não faz uso do saber para exercer domínio sobre o outro, mas sim sendo agente causa de desejo, provocando, no outro, o desejo do saber. Contudo, se é desejo, marca-se como falta; falta que faz produzir. E é exatamente porque o saber em psicanálise é furado, faltoso é impossível transmiti-lo por completo. Assim, em 1964, Lacan cria o Ato de Fundação e estabelece um dispositivo, considerado como órgão de base da Escola, o chamado Cartel, que obedece a sua lógica que é a de um saber não totalizado.
O Cartel se constitui por decisão de seus membros, visando o estudo e a produção acerca de um tema. É uma estrutura composta de três a cinco pessoas e o mais-um, que zela pela tarefa. Os membros que compõe o Cartel trabalham tentando decifrar um saber que lhe afeta, e a resposta depende do trabalho de cada sujeito. Através do Cartel que, também, faz-se a transmissão na psicanálise.
A proposta do EAD vem ao encontro da dinâmica que rege o cartel na medida em que o orientador não dispõe do discurso do líder; é como o mais-um entre os aprendizes. No ensino a distância, assim como no cartel, a produção do saber, do não-todo saber, embora individual, não tem dono, “pertence a todo conjunto”.
Tanto para a Psicanálise quanto para a modalidade EAD, o saber é uma elaboração individual do sujeito. O tutor, ao estimular o aprendizado, aponta que o mesmo não está pronto e acabado. Precisa continuamente passar por uma constante revisão e transformação.
domingo, 4 de julho de 2010
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